Com um conjunto compacto entre as curtas e as longas metragens, onde os lugares onde ocorrem as filmagens contam mais histórias e transmitem mais informação e sensações que qualquer palavra escrita num diálogo dos seus filmes, Virgil Vernier tem construído uma carreira muito própria no cinema francês. 

Sempre deambulando entre as regras da ficção e do documentário, tal qual um etnógrafo, antropólogo ou filosofo a lutar com questões existenciais, Vernier tem deixado a sua marca. Da sua curta “Orleans”, que visitava a cidade natal de Joana D’Arc, a “Sophia Antipolis”, um mergulho num parque tecnológico situado numa localidade francesa entre Cannes e Nice, passando por “Mercuriales”, um banlieue industrial, o espaço e a forma como este atrai e repele os que por lá pululam está sempre no radar no cineasta.

Em “100.000.000.000.000”, em competição no 77º Festival de Cinema de Locarno, o processo e as dores humanas e geográficas repetem-se, sendo agora o Mónaco e a Côte D’Azur gaulesa (há cenas filmadas em Cannes) um cenário tão reluzente, brilhante e artificial, em processo de constante modernização, que serve de base para uma outra história de solidão e alienação, desta vez do acompanhante, ou prostituto, como quiserem chamar, Afine (Zakaria Bouti).

Durante cerca de 77 minutos, o espectador vai assistindo às suas interações com diversas figuras (nenhuma das quais podemos chamar de amigos ou parceiros)  e por diversos espaços (nenhum dos quais possamos chamar de casa). De uma cinquentona atrevida, a um cinquentão preocupado com os músculos, passando por uma babysitter sérvia, com ambições “New Age“, que por sua vez está a tomar conta da filha pré-adolescente de um casal de chineses ricos, Afine vai estabelecendo conexões, que tanto atenuam a sua solitude, como adensam a sua condição precária num mundo de opulência e alheamento.

Filmado num Super 16 ampliado pelo diretor de fotografia Jordane Chouzenoux, Virgil Vernier entrega assim a Locarno uma nova obra de difícil categorização, na qual muitos dirão que não se passa nada porque só sabem ler as linhas textuais que apenas nos mostram mais uma história de gigolôs. Mas o segredo, o que há para dizer e retirar deste “100.000.000.000.000”, está na relação espaço-tempo-pessoa. Relação essa que é nos entregue de forma simplista, mas onde o acolhimento dos afetos sente-se mais acidental que construído.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
100-000-000-000-000-solidao-no-meio-da-opulencia Virgil Vernier entrega assim a Locarno uma nova obra de difícil categorização, na qual muitos dirão que não se passa nada porque só sabem ler as linhas textuais que apenas nos mostram mais uma história de gigolôs.