No coração do agronegócio brasileiro, uma professora indígena luta pelo direito da sua comunidade às terras ancestrais. No lado oposto, está a suposta herdeira dessas terras, uma advogada com fortes relações com o poder federal bolsonarista. Esta é a sinopse de “Vento da Fronteira” (The Wind Blows the Border, 2022,) filme com argumento, direção e montagem das brasileiras Laura Faerman (estreante em longa-metragem) e Marina Weis (que já co-dirigiu outras longas-metragens documentais). 

Os empresários da agroindústria são uma verdadeira praga para o Brasil, interferem na legislação ambiental, financiam e elegem políticos para os beneficiarem no Parlamento, desestabilizam os governos de esquerda, devem muitos impostos ao Estado, desmatam uma floresta milenar, poluem terras férteis, contaminam os rios (com mercúrio usados no garimpo), criam milhões de cabeças de gado e promovem a violência no campo. São latifundiários em sua maioria de extrema direita, principalmente do norte do país. Eles prejudicam os povos originários, contratam pistoleiros para os assassinarem em plena luz do dia, e restam impunes dada a força económica e política que detém, os seus lucros envolvem a destruição da natureza e alta concentração de terra e renda. A burguesia agrária no Brasil também criminaliza as ocupações e acampamentos do MST- Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (que luta pela reforma agrária e pelo direito à terra), e tem a visão de que todos que se opõem aos seus interesses devem ser aniquilados. 

“Vento da Fronteira” traz duas visões paralelas: uma dos indígenas (através da voz de uma liderança da etnia Guarani Kaiowá) e a outra de um fazendeiro muito abonado. As realizadoras escutam com a mesma atenção os dois lados, mas não endossam as falas do fazendeiro, da sua esposa e da sua filha (advogada), todos declaradamente bolsonaristas. A narrativa não devia dar voz aos opressores, pois historicamente sempre tiveram voz e vez.

Nos últimos anos, desde a destituição da presidenta Dilma Rousseff, passando pelo governo Bolsonaro, no Brasil ser imparcial é perigoso, e, neste caso, envolve uma questão ética, dar atenção igual a vozes com poderes tão distintos, uma atitude que não se espera no cinema, ainda mais num documentário.                             

Há duas falas assustadoras da família ruralista: ao mencionar o povo indígena como uma “subespécie humana que ficou para trás no caminho da humanidade”, e a outra, quando dizem atacá-lo “até acabarem as balas”.

Espero que os espectadores ao assistirem “Vento da Fronteira” , mesmo não conhecendo tal realidade, tenham senso crítico e possam se indignar com a nefasta atitude desta gente do agronegócio, e se coloquem do lado dos povos originários. Esta temática do filme infelizmente é pouco levada a sério na imprensa brasileira. Laura Faerman e Marina Weis falharam na tentativa de denunciar a situação vivida pelas suas personagens,  de um lado, questões ligadas ao direito à terra indígena, e de outro, ações criminosas cometidas por latifundiários do Brasil. Todavia as imagens filmadas chamam a atenção para a necessidade de conscientização relativa às causas indígenas. 

O documentário retrata um tema político e pessoal, individual e coletivo, através da resistência feminina indígena na voz de Alenir Aquino Ximendes, ideais comunitários de uma nova geração que se articula para seguir os passos dos seus ancestrais em defesa da floresta amazónica e da terra. 
Rodado na conflituosa fronteira do Brasil com o Paraguai, uma fotografia primorosa e uma montagem paralela, passiva e neutra, as realizadoras constroem uma estética poética demais para abordar a vida das pessoas que escolheram como personagens. Os planos lentos e calmos dão tempo ao espectador para ver e ouvir as forças díspares dos detentores de concentração de terras (improdutivas) e uma comunidade indígena. Opressores e oprimidos não poderiam ser colocados num mesmo patamar. 

Os indígenas são um povo que é vítima de ataques frequentes de ruralistas, principalmente com armas de fogo, muitos perderam a vida na luta por reivindicar o direito de viver em paz em seu território e na busca de ter as suas terras demarcadas pelo poder público. Eles são os guardiães da floresta e preservam o meio ambiente desde que o Brasil existe.

“Vento da Fronteira”  dura 78 min, teve a sua estreia internacional no Hot Docs-Canadá, onde recebeu o Prémio Especial do Júri. No Brasil o documentário pode ser visto online no site da  Plataforma Taturana, e em Portugal no site da FILMIN. Deixo-vos o trailer.

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Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
vento-da-fronteira-daquilo-que-afeta-os-indigenas-no-brasilO documentário retrata um tema político e pessoal, individual e coletivo, através da resistência feminina indígena na voz de Alenir Aquino Ximendes, ideais comunitários de uma nova geração que se articula para seguir os passos dos seus ancestrais em defesa da floresta amazónica e da terra