Existe uma sensação permanente de deslocamento emocional e geográfico em “Baan”, primeira longa-metragem de ficção de Leonor Teles, que através da história de  L (Carolina Miragaia), uma jovem desiludida com uma relação falhada, não apenas com alguém, mas também com a sua cidade, irreconhecível e em transição, ao ponto das imagens de Banguecoque e de Lisboa, que vão surgindo entre cortes, confundirem-se num mesmo espaço mental.

Enquanto aborda as ansiedades de uma arquiteta envolvida em diferentes formas de ativismo, mas sufocada por um capitalismo selvagem onde tem de trabalhar e respeitar regras hierarquicamente impostas, Leonor Teles toca em muitos temas já evidenciados noutros filmes da sua autoria, como “Balada de um Batráquio” ou “Cães que Ladram aos Pássaros“, com os problemas de habitação, a gentrificação, o racismo, a xenofobia e a precariedade emocional e financeira a entranhar-se num guião onde a confusão emocional, social e geográfica abalroa qualquer hipótese de clareza espiritual.

Teles, salvo raras exceções, demarcadas num muro, em cartazes ou em bocas aos patrões (muito bem interpretados pelos também cineastas Filipa Reis e João Miller Guerra), prefere sempre soluções subtis, as quais explanam o estado de convulsão e confusão pessoal da sua protagonista, mas também da sua cidade, em vez de apostar num discurso panfletário explícito. Para isso, esta poeta visual elevadamente orgânica usa como caderno de ideias os diferentes artifícios visuais inerentes ao cinema, como a direção de fotografia, montagem e banda-sonora, que a maioria das vezes são mais espessas e contém mais camadas e ideias que a vertente textual das palavras proferidas. Tal qual vemos no cinema de Wong Kar-Wai, Edward Yang e Hou Hsiao-Hsien, claramente inspiração para Teles.

O resultado é um filme multidimensional que toca em temas fundamentais da existência humana e citadina, mas que muitas vezes, perdido nas formas de retratar a confusão da protagonista, aliena mais o espectador que o agarra para discutir efetivamente todos os dados que lança para cima da mesa.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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