Milhões de dólares arrecadados nas bilheteiras à luz das ideias de James Wan na franquia “The Conjuring” (2013-2021) elevaram o tema da possessão demoníaco a um status de excelência comercial numa seara B do terror, sempre reverente ao legado deixado por “The Exorcist” há cinco décadas. No ano em que o horror se renovou com bons filmes de verve autoral como “Pearl” e “The Pope’s Exorcist”, uma insossa produção britânica chamada “Consecration” teve espaço sob os holofotes do pop graças à exuberante cinematografia proposta pelos fotógrafos Rob Hart e Shaun Mone. Mas esse espetáculo de horror não vai além do requinte plástico, valorizado pela montagem sagaz de Arthur Davis. Essa vigorosa artilharia de técnicos inspirados não é capaz de salvar uma dramaturgia preguiçosa, mesmo que os acordes musicais da banda-sonora de Nathan Halpern proponham sinestesia na sua imersão nas veredas do medo.

É difícil mergulhar na trama sem pensar em “Agnes of God”, que o canadiano Norman Jewison no seu legado de pérolas. Na trama, uma jovem inglesa, Grace Fario (Jena Malone em atuação protocolar) chega a um convento na Ilha de Skye para descobrir a verdade sobre a morte do irmão, que flertava com os votos sacerdotais da Igreja Católica. Lá, ela vai descobrir que ele era suspeito numa investigação de homicídio. Abalada pelo clima tóxico que encontra no local, ela viaja para a Escócia para encontrar evidências do que pode haver de sinistro naquele ambiente. A inquietação faz com que Grace fique na fronteira do sobrenatural, ao abordar uma histeria no âmbito satânico na instituição cristã que inspeciona. Há fortes chances de que o Diabo seja o responsável pelo mal que lá se instaura. Mas o racionalismo da protagonista não deixa que ela acredite nisso. É pena que a realização de Christopher Smith não avance de maneira inventiva pela esfera do mistério.

Há uma proposta de jump scares que não é devidamente valorizada pelo cineasta, conhecido em Hollywood e na indústria audiovisual do Reino Unido por “Triangle” (2009). O esforço em fazer uma longa-metragem à moda Wan resvala no pastiche, sem a exuberância autoral que o realizador autoral por trás de “Saw” (2004) traz. O descuido de Smith com os códigos do género emperra a chance de a plateia chegar aos calafrios, assim como retarda a dimensão existencialista do guião detetivesco.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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