Avistado pela primeira vez nos cinemas de Tóquio, em 1954, no filme “Gojira”, produzido pela Toho Film Company Ltd. sob a realização de Ishirô Honda (1911-1993), Godzilla foi apropriado por Hollywood em 1998, para um desastroso filme do alemão Roland Emmerich, e regressou por lá em 2014, para ganhar uma franquia dramaturgicamente pífia.

O Japão entendeu que era hora do seu “filho” ser pródigo nos Estados Unidos, a estrelar uma saga na qual dá chapadas na cara do King Kong, mas não abriu mão dele. A 37ª longa-metragem sobre a criatura estreou no início de dezembro e transformou-se num sucesso mundial. Até o derradeiro fim de semana de 2023, a produção de 15 milhões de dólares contabilizava 78 milhões de receitas, com a garantia de uma continuação já assegurada. Merece! A trama recicla o legado de Honda, responsável pela criação do rei das bestas colossais ao lado de Tomoyuki Tanaka e Eiji Tsuburaya. Calcada numa fórmula degastada, na qual Tóquio (ou cidades próximas) é invadida pelo leviatã e mobiliza as suas forças armadas para uma reação, a cinessérie nipónica de Godzilla caminhava com êxito na sua pátria, mesmo com a reprodutibilidade excessiva de um enredo. A saída de “Minus One” – que surpreendeu fãs e encantou quem nunca passou cartucho aos monstros – foi transformar uma aventura mesclada com “cinema catástrofe” num melodrama histórico. É no Japão do pós-Guerra, amargurado pela derrota para os canhões dos Aliados, que a trama se passa, propondo um painel geopolítico (em tom de folhetim) de uma pátria em reconstrução.

É mais fácil que essa abordagem nos faça lembrar Hirokazu Kore-eda (“Shoplifters”) e Mikio Naruse (“Nuvens Flutuantes”) do que de blockbusters norte-americanos de destruição em massa, uma vez que seu timbre se aproxima daquele praticado pelos artesãos asiáticos.  Esse resquício da tradição melodramática é o mérito da fina realização de Takashi Yamazaki, que filmou na região insular de Konshu, de março a junho de 2022. Responsável pelas animações “Stand By Me Doraemon” (2014) e “Lupin III – O Primeiro” (2019), o realizador gravita pela live action com sagacidade, a construir sequências de tensão e brutalidade que arrebatam o olhar pelo seu virtuosismo.

O filme conta com uma direção de arte austera, que altera pouco o visual histórico de Godzilla, de modo a realçar as suas feições ameaçadoras. Segundo sítios da web especializados na cultura nerd, a aparência da criatura foi inspirada em várias espécies de répteis e alguns dinossauros. O seu o corpo lembra um tiranossauro, apesar dos longos braços típicos de um iguanodonte, com placas ósseas dorsais comuns a estegossauros. A sua cauda, uma arma imparável, parece a de um crocodilo. É com ela que o gigantesco ser escamoso devasta um Japão assombrado pela explosão de bombas em Hiroshima e Nagasaki, em 1945.  

Despertado pelas explosões nucleares inerentes ao dispositivo mortal inventado pelo físico J. Robert Oppenheimer (1904-1967), Godzilla desperta com fúria. Mas o seu despertar não é o foco de “Minus One” mas, sim, as ações do piloto kamikaze Kōichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), que aterra na ilha de Odo, no meio de um combate aéreo. O mecânico de aeronaves Tachibana (Munetaka Aoki) insinua que Shikishima fugiu do seu dever, por cobardia. No meio desta acusação, uma criatura parecida com um ser pré-histórico ataca. Shikishima entra no avião, mas não consegue disparar contra o monstro e fica inconsciente. Ao acordar, descobre que Tachibana é o único sobrevivente, que culpa Shikishima por não ter agido. Vai começar aí uma cruzada de combate contra Godzilla, que transborda adrenalina, sem jamais tirar a sua atenção das angústias afetivas de uma nação arruinada no confronto contra a armada do Tio Sam no Pacífico, depois do ataque à base naval de Pearl Harbor.

O que se vê em “Minus One” é História, do lado dos “derrotados”, mas não dos que se resignam e, sim, dos que perseveram.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
godzilla-minus-one-reinvencao-do-leviataA saída de “Minus One” – que surpreendeu fãs e encantou quem nunca passou cartucho aos monstros – foi transformar uma aventura mesclada com “cinema catástrofe” num melodrama histórico.