Movido por uma crise existencial e navegando entre a mais profunda austeridade e a grandiloquente soberba, o “one man show” Fabio D’Orta apresentou em estreia mundial no Festival de Turim o seu “The Complex Forms”, um thriller com elementos de horror que usa o fantástico para falar do místico que tantas vezes parte do real. E dizemos “one man show” pois D’Orta escreveu, realizou, montou, fotografou e ainda trabalhou nos efeitos visuais, guarda-roupa e direção artística desta sua obra em estreia, a qual usa um palácio no meio da floresta para contar a história faustiana de um grupo de homens que aceita “vender a alma ao Diabo” em troca de uma soma monetária.

E quanto mais dinheiro estes homens pedem, mais tempo os seus corpos vão estar abertos a uma possessão. E não, não se trata de demónios, mas de criaturas gigantes de iconoclastia monstruosa extraterrestre (ou do além), que alegadamente chegam com os relâmpagos. Todo o filme parece (e é) uma alucinação existencial – “Lost”, “Dead End”, “Stay” e “Reeker” são da mesma linhagem -, onde o desenvolvimento dos eventos vai acabar por ser muito mais interessante que o desenlace.

Filmado a preto-e-branco, “The Complex Forms” move-se pelo medo do que aí vem, pelo dilema do livre-arbítrio que os homens acreditam que têm, e pela noção de controle que entretanto já perderam. Fabio D’Orta preenche o ecrã com a magnificência das locações, filmadas num sentido de grande angulares, encurralando as almas que lá habitam, que se entregam aos medos primários de luta pela sobrevivência. E neste puzzle de mistério, pese embora a espetacularidade estética e sonora, a dependência do filme para o seu “segredo” age como uma derradeira fraqueza, pois descoberto o final, as emoções humanas e os dilemas existenciais que fomos acompanhando tornam-se meramente adereço ao seu serviços.

Plúmbeo e derivativo, “The Complex Forms” é, ainda assim, um esforço interessante de D’Orta e deverá encontrar o seu público no circuito dos festivais de cinema fantástico.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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