Numa nova incursão do cinema dos “problemas de primeiro mundo”, a realizadora, argumentista e produtora de filmes como “Original Copy”, “I Say Nothing Else” e “Friends with Money” regressa com mais uma comédia dramática, desta vez sobre um casal aburguesado que vê a sua relação afetada após o marido trair a confiança da esposa.
A grande traição, segundo Nicole Holofcener, é o facto do esposo ter mentido ao dizer que gostava do livro que ela está a escrever, quando afinal não gosta e ela ouve-o dizer isso a um amigo. Uma “mentirinha branca”, como costumamos dizer, que tenta aviltar a palavra confiança como o centro de uma relação, onde muitas vezes são utilizadas pequenas mentiras para não magoar o/a parceiro/a ou amigo/a.
Movendo-se por terrenos de uma família privilegiada, ela uma escritora com uma irmã (dela) decoradora, que ocasionalmente participam na entrega de vestuário aos pobrezinhos, e ele um psicoterapeuta que acha que tem de resolver com cirurgia os papos nos olhos, ‘You Hurt My Feelings‘ é essencialmente frustrante, mesmo que aborde questões das relações de longa-duração e as expetativas em relação aos filhos e companheirismo. Como é habitual, o cinema de Holofcener não é construído para gargalhadas histéricas, mas antes sorrisos de uma audiência que a maioria das vezes se senta no mesmo sofá de privilégio que as personagens que tem pela frente.
Quer Julia Louis-Dreyfus, na sua segunda colaboração com Holofcener, ou Tobias Menzies, conhecido pelo papel do Príncipe Philip de Edimburgo em “The Crown”, absorvem na perfeição este universo nova-iorquino muito longe dos reais problemas, na tradição de Woody Allen e Nora Ephron, mas a verdade é que além de soar a pouco, o que surge no ecrã é muito derivativo e desinteressante, nunca provocando uma real reflexão sobre a questão em discussão.
Por isso, nesta ligeireza de quem está apenas a contar uma piada inconsequente, ou a fazer um filme como quem enche chouriços gourmet, ‘You Hurt My Feelings‘ nunca sai da esfera do entretenimento direcionado para as massas que retrata, sem qualquer ponta de crítica ou ironia.


















