Indicado três vezes ao Leopardo de Ouro, pelos filmes “Dos Disparos” (2014), ”Los Guantes Mágicos” (2003) e “Rapado” (1992), Martín Rejtman iniciou em 1986 uma obra que faz da dramédia o seu género por excelência, expresso em painéis agridoces da vida cotidiana que se impõe pela sua singular habilidade em dirigir elencos. Combina retratos de impasses do dia a dia, sobretudo aqueles instalados na ordem dos afetos, com inventários sobre a inabilidade de alguns indivíduos de sentirem pertencentes a determinados códigos sociais. Não é bem o caso de Gustavo, professor de ioga argentino radicado no Chile e encarnado de maneira confusa por Esteban Bigliardi na longa-metragem “La Práctica”. Trata-se de uma figura plena de retidão em suas escolhas (vive da Educação Física há cerca de 16 anos; é vegetariano; rejeita alho), com algumas excentricidades no seu modo indomável de lidar com as escolhas, ferido na sua vida sentimental. A sua mulher, que também ensina ioga e complementa a sua renda como empregada de balcão, está decidida a se separar e já tem outro interesse romântico em vista.
A sua mãe tenta – como pode – controla os seus passos, ainda que more em Buenos Aires. Para piorar, ele magoa-se no joelho, sofrendo de dores que ortopedia alguma ajusta. É um colorido e tanto para a uma construção de dramaturgia e para a concepção de um perfil de personagem rico. Mas Esteban transforma aquela figura num ser apagado, sem carisma, o que se complica com as guinadas inexplicáveis do guião.
Muitos assuntos são esboçados no enredo. As peripécias narradas por Rejtman incluem um terremoto que não se explica; desentendimentos com uma aluna alemã que perde a memória num acidente; o flirt com uma farmacêutica, Laura (a ótima Camila Hirane); o roubo de smartphones e outros pertences após a chegada de um estudante misterioso. Mas nada isso é aprofundado.
Como compensação, o filme oferece à plateia algumas (poucas) piadas, algumas bem boas, sobre a inaptidão das pessoas que cruzam o caminho de Gustavo em lidar com os seus sentimentos. Há ainda uma aposta no filão do “extra-ordinário” (termo usado para designar mistérios sobre-humanos sem justificativas racionais), como é o caso de um tremor de terra. Frente a filmes anteriores do cineasta, como o ótimo “Silvia Prieto” (1999), “La Práctica” carece de maior contundência – até na sua pretensa leveza -, prejudicado por uma fotografia apolínea, de pouca inventividade. Camila Hirane é um dos acertos da narrativa, numa atuação secundária inspirada.



















