Artista plástico, formado pelos códigos da pintura, o realizador romano Matteo Garrone trafega do realismo mais áspero para a magia mais lúdica, equilibrando a paleta de cores dos seus filmes com uma harmonia que, na tradição do cinema de Itália pós anos 1960, só Bernardo Bertolucci fez similar – e com tanta frequência. Na atividade desde 1996, ele ganhou holofotes em 2008, ao renovar as cartilhas dos thrillers de máfia com “Gomorra“, recebendo o Grande Prémio do Júri de Cannes pelos seus feitos. Ganharia mais um em 2012, com “Reality“, ao incoporar elementos do Fellini de “Lo Sceicco Bianco” (1952) a um estudo da histeria mediática de programas como “Big Brother“. Nos anos seguintes, fez fábulas (“O Conto dos Contos” e “Pinocchio“) e até um western urbano contemporâneo (o feroz “Dogman“). São órgãos bem distintos de um mesmo (e saudável) organismo autoral, no qual o colorido sempre é rebuscado, mas na medida precisa. Nesse sistema estético vivo, “Io Capitano” pulsa frenético como um coração afetivo para o hemisfério melodramático de uma obra singular.
Laureado com o Leão de Prata de Melhor Realização, o troféu Marcello Mastroinanni de estrela revelação (Seydou Sarr) e mais 10 prémios de júris paralelos em Veneza, a longa-metragem foi a escolha italiana para lutar por uma vaga na caça ao Oscar 2024. Garrone dá às plateias o seu filme mais maduro, cujo maior acerto é se manter do começo ao fim nos trilhos do género da aventura, sem nunca se desviar dela. O arame farpado do folhetim está em cena, afiado, mas o que move o realizador numa trama sobre a imigração ilegal africana são as peripécias.
Amparado pela destreza do diretor de fotografia Paolo Carnera (parceiro de Mario Martone e de Paolo Taviani) para lidar com a luz natural do Senegal e da Líbia, “Io Capitano” aproveita toda a habilidade do cineastar em falar de pessoas sonhadoras que são atropeladas pela falta de amparo imposta pela pobreza.
No filme, os primos Seydou (Farr) e Moussa (Moustapha Fall) são adolescentes de 16 anos que sonham deixar Dakar para trás e tentar a sorte na Itália. Ignorando os conselhos maternos, sob as bênçãos de um sacerdote, a dupla põe o pé na estrada. Encara desertos suarentos, tiros, pressões de grupos armados, trabalhos em construção, barcos abarrotados… Há todo o tipo de perigo, o que mantém a adrenalina em alta, sem prejudicar a reflexão que o cineasta almeja gerar ao discutir a solidariedade no viés da resiliência. E sabe evitar o sensacionalismo e os excessos gráficos da violência sem fazer do filme um calvário. A sua sobriedade na forma de conduzir o guião por uma linha heroica é louvável.




















