Chama-se Set Piece o efeito dramatúrgico metonímico a partir do qual uma imagem (ou uma sequência) passa a sintetizar um filme como um todo, como é o caso do frame de um alien a voar de bicicleta pela Lua, em “E.T.” (1982). O mesmo vale para Gene Kelly a rodopiar ensopado de guarda-chuva na mão em “Singin’ in the Rain” (1952). O primeiro (e notável) caso desse procedimento (por vezes não intencional, produzido mais pela receção da plateia do que pela intencionalidade de cineastas) nos títulos em competição pela Concha de Ouro de 2023, em San Sebastián, está em “All Dirt Roads Taste Of Salt”, já exibido em Sundance, em janeiro deste ano. Há um lúdico instante na longa-metragem da poeta e realizadora americana (do Tennessee) Raven Jackson, no qual a atriz e cantora anglo-ugandense Sheila Atim segura uma miúda no colo, num gesto maternal de acalanto brando.

Diante dela, a câmara do diretor de fotografia Jomo Fray captura a angústia da personagem, num olhar. A sua mirada plúmbea é de perplexidade. Parece perplexa frente a um Mississippi chuvoso. Os seus olhos traduzem toda a essência de uma mulher da qual só iremos conhecer alguns flashes, fragmentos de sensações, impressões… e, ainda assim, será de soslaio. Nunca existirá uma abordagem frontal, mas é difícil apagar uma imagem tão plena como a dela das retinas, assim como é difícil ruminá-la sem pensar em versos de um poeta brasileiro, Cruz e Sousa (1861-1898), que operava de forma similar ao processo cartográfico da alma humana proposta por Raven no seu drama sufocante – e em seu livro de poesias, “little violences” (2017).  

Cruz e Sousa escreve: “O horror dos vivos/ Ao menos junto dos mortos pode a gente/ Crer e esperar n’alguma suavidade:/ Crer no doce consolo da saudade/ E esperar do descanso eternamente./ Junto aos mortos, por certo, a fé ardente/ Não perde a sua viva claridade;/ Cantam as aves do céu na intimidade/ Do coração o mais indiferente./ Os mortos dão-nos paz imensa à vida,/ Não a lembrança vaga, indefinida/ Dos seus feitos gentis, nobres, altivos”. Pois a escrita de Raven, no guião, e a sua escrita fílmica austera, de gestos suaves, vão para uma rota similar. O interesse da sua imersão no Mississippi não está na geografia física, mas na noção de quietude deixada pela ameaça da finitude nos ciclos da Natureza.

Sheila Atim embala uma criança sem esnconder a angústia de sua personagem diante de um solitário Mississippi

É necessário que esse “n” seja grafado em maiúsculas, pois a Natureza é a personagem central de uma maneira de narrar repleta de austeridade (em demasia, algumas vezes) que enseja fazer uma triagem de afetos femininos, mas se embaralha, vez ou outra, na sua própria estilização. O que temos é uma relação quase especular entre duas mulheres, Evelyn (Sheila) e Mackenzie, ou Mack, que é vista em diferentes tempos. Na infância, o papel cabe a Kaylee Nicole Johnson e, na idade adulta, à ótima Charleen McClure.

Pouco será informado sobre essas mulheres, fora alguns lampejos sobre amores, partos, bebés e celebrações religiosas, além de uma delicada sequência de banho entre mãe e filha. Raven não se preocupa em construir uma dramaturgia clássica de causalidades, de factos, reviravoltas, cheia de informações. A omnipresença das matas, do nevoeiro, do vento, da lama é o que mais instiga o seu interesse nesta experiência lírica que conta com Barry Jenkins (o realizador de Moonlight”) como produtor. A sua engenharia de som exuberante arrasta-nos para um universo de pedaços soltos, qual um puzzle incapaz de ser montado. Esses buracos incomodam, mas instigam. Causam a sensação de termos diante do olhar um “proto-filme”, ou seja, a planta para uma saga maior, um esboço. Mas o desenho dessa planta é tão delicado que explode a nossa inquietação, implode as nossas certezas e gera reflexão ao tatear a sensação da perda.

Há em Mack o peso de algo que parece ter morrido, mas segue em seu espírito, como um norte, uma bússola. Ela define a essência do desterro com um aforismo, ao explicar onde nascem as gotas que chovem sobre a casa: “Não termina, nem começa; transforma-se”. É como um poema de Cruz e Sousa: “Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…/ Incensos dos turíbulos das aras/ Formas do Amor, constelarmente puras”. É da fluidez do ser que fala Raven.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
all-dirt-roads-taste-of-salt-austero-ensaio-sobre-a-natureza-e-suas-perdasA omnipresença das matas, do nevoeiro, do vento, da lama é o que mais instiga o seu interesse nesta experiência lírica que conta com Barry Jenkins (o realizador de Moonlight”) como produtor