Catapultado para a notoriedade depois de conquistar quatro prémios no Festival de Tribeca, em Nova Iorque, “Estranho Caminho” é um dos mais enigmáticos exercícios do filão chamado de “extra-ordinário”, um derivado do cinema fantástico no qual acontecimentos fora da norma racional não são justificáveis, sem existirem forças sobrenaturais ou operações científicas que os expliquem. É o mistério pelo mistério, numa operação de fragmentação de certezas que desafia a lógica e celebra a poesia. Guto Parente, cineasta brasileiro do Ceará notabilizado em 2010 ao fazer parte do coletivo Alumbramento (com o seminal “Estrada Para Ythaca”), investe de forma inteligente nos códigos (ainda em formação) dessa nova modalidade da fantasia (ou melhor, do assombro), numa narrativa de um intimismo sufocante. As suas sequências se apresentam como haicais sobre a incerteza que ornamenta a relação pai e filho. É filme de implosão, onde o belo se apresenta pelo que não é dito, pelo que não se explica.


Além das láureas de Melhor Filme e Melhor Realização, Tribeca coroou a fotografia dionisíaca de Linga Acácio, que se deleita na luz natural das paisagens cearenses a fim de trazer a natureza como um vetor de arejamento para uma conjugação afetiva que começa a ser esboçada entre um cineasta, David (Lucas Limeira, sempre numa composição doce, sabiamente contida), e o pai que há tempo não via, Geraldo, papel do sempre surpreendente Carlos Francisco (visto em “Marte Um” e “Bacurau”). Foi dele o quarto troféu nova-iorquino para a longa-metragem, a mais madura da carreira prolífica de um cineasta que arrebatou a Mostra de Tiradentes, há uma década, com “Doce Amianto” (realizado ao lado de Uirá dos Reis) e voltou a brilhar (a partir de Roterdão) com “Inferninho”, rodado em dupla com Pedro Diógenes, em 2018.

Um dos títulos mais esperados dos Horizontes Latinos de San Sebastián, “Estranho Caminho” é uma recriação cheia de estranheza dos sofridos dias de arranque da pandemia, em 2020. David volta para casa, em Fortaleza, após um período longa em Portugal, onde vive com Teresa (Rita Cabaço), para apresentar um filme num festival que é cancelado em decorrência da covid-19. O filme experimental de (quase) terror que veio exibir servirá de matéria para que Guto explore não apenas a sensibilidade fraturada do rapaz, mas também a aura de indefinição (e também de uma espectral peste) no Brasil que reconstitui. A exasperação vai sendo graduada gota a gota numa narrativa que refaz um passado bem recente à foça da direção de arte minuciosa (mas discreta) de Taís Augusto. Ela se faz notar com mais brio na casa de Geraldo, onde David vai bater à cata de um pouso seguro.

A sua estadia na pousada onde estava hospedado acaba à força e ele, sem lar, acaba procurando o pai, a quem vinha seguindo de longe, sem abordagens, por conta de um hiato antigo que os distanciara. Geraldo é um enigma vivo, um valor de X incalculável para uma relação de afago, que usa uma espécie de aspirador de pó para “desinfetar” David quando este aparece no seu apartamento, de modo a evitar rastros do coronavírus. Há segredos no ritual de absoluto egocentrismo daquele homem que abre pequenas frestas para estabelecer conexão com o filho, interessando-se por entender a obra cinematográfica dele. Tem atitudes exóticas, fala uma língua indecifrável quando acorda solapado por falta de ar e escreve um livro do qual não fala. O que existe de incerto e de indefinível dele torna o filme atraente, por dialogar com a tradição de um certo suspense de semiótica dificilmente traduzível por códigos convencionais. É como o mundo de David Lynch, em “Wild at Heart” (Palma de Ouro de 1990): há um chão que nos é familiar, mas há signos que não se encaixam em leituras mais aparentes, imediatas. Mas a riqueza da dinâmica aparente é que o oceano de interpretações que a plateia pode fazer a partir das bizarrices de Geraldo não afoga o aspeto amoroso de uma história sobre família, sobre recomeços amorosos, sobre paternidade. No horizonte enfermo de um Ceará infectado pelo coronavírus, existem mortos, mas a vida sabe incorporá-los nos seus ritos diários. Os modos de interação entre David e Geraldo evocam “Le Chiavi di Casa” (2004), de Gianni Amelio.     

Link curto do artigo: https://c7nema.net/kg7b
Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
estranho-caminho-poesia-do-extra-ordinario “Estranho Caminho” é um dos mais enigmáticos exercícios do filão chamado de “extra-ordinário”