Com grande experiência a trabalhar como dançarina profissional, Afef Ben Mahmoud e o seu marido Khalil Benkirane embarcaram em “Backstage” numa viagem a um grupo de dançarinos que, depois do veículo em que seguiam ter problemas, vagueiam pela matas da Cordilheira do Atlas, em Marrocos.
E o filme arranca com uma performance num espaço encerrado, a qual fica marcada pela queda aparatosa de Aida (Afef Ben Mahmoud ) provocada por Hedi (Sidi Larbi Cherkaoui), companheiro de vida e de palco. E mesmo que saibamos que “the show must go on”, pois a tournée não pode parar, as sequelas da queda (físicas e psicológicas) obrigam a trupe a partir em busca de um médico, uma tarefa que não só vai-se revelar difícil devido a barreiras geográficas e linguísticas, mas porque diversos conflitos no seio do grupo vão colocar em xeque as relações e a dinâmica coletiva.
Mas ao contrário do que poderia ser esperado, pois conflitos e querelas dentro do seio de um grupo geralmente levam a discursos palavrosos e acalorados, a dupla de cineastas prefere responder no seu objeto cinematográfico principalmente de forma sensorial, através de atos de dança, ora quentes, ora gélidos, que transformam este num exercício principalmente físico e sensorial.
Por isso mesmo, “Backstage” tem no seu trabalho coreográfico, aliado a uma direção de fotografia focada em captar a essência dos bosques como um local misterioso e potencialmente hostil, o seu veni, vidi, vici, com a montagem acertada a dar uma panorâmica evolutiva dos eventos externos que condicionam as personagens, mas também os abalos e sismos internos, cheios de réplicas, que condicionam as ações individuais.
Por isso mesmo, “Backstage” – estreado na 20ª Giornate degli Autori do 80º Festival de Cinema de Veneza -vai um pouco mais além da análise generalista aos bastidores de uma trupe, aventurando-se nas suas vidas pessoais, implacáveis nos condicionantes da dinâmica do grupo, e no funcionamento final de todos como uma família, cheia de problemas, amores e desamores.
E, nesse processo, o filme fala também da exploração do corpo como uma forma de comunicação, o que por sua vez lança alguns temas tabus no mundo árabe, como a sexualidade feminina, gerando uma camada extra da dança como um ato político de verdadeira liberdade.


















