“There are two disparate Indias
neither cares much about the other
but sometimes they collide“
Único filme selecionado da Índia para a 80º edição do Festival de Cinema de Veneza, integrado na secção Orizzonti, “Stolen” não apenas tem o mérito de abordar de forma dinâmica e frequentemente frenética algumas questões sensíveis do panorama político, social e cultural de um país repleto de disparidades, como lança para o panorama internacional um cineasta novato que, ao espalhafato das fábulas de Bollywood, onde cresceu como assistente de realização, responde com uma ficção de bases neorrealistas, agarrada formalmente e esteticamente ao vérité, mas que rapidamente se expande para um imprevisível thriller eletrizante com tudo para triunfar.
Na Índia existem dois mundos dispares (o dos ricos e dos pobres; dos citadinos, dos rurais; das castas diferentes) que frequentemente não se importam um com o outro, mas que, por aqui, em escassos 90 minutos, vão colidir com estrondo após um fotógrafo, que cresceu num ambiente privilegiado, se tornar testemunha do rapto de um bebé de uma mulher, junto a uma estação ferroviária.
Procurando nos dois blocos que colidem resquícios de humanismo, esperança e compreensão, o realizador Karan Tejpal entra pelo submundo do crime, da toxicodependência, do tráfico de seres humanos e muito mais, sempre com uma incomodativa desconfiança geral nas artimanhas complexas da contemporaneidade, onde se incluem a corrupção das instituições (médicas, policiais, etc), as lutas de poder (religiosas, institucionais, políticas) e novas vagas de vigilantismo, impulsionadas pelo fenómeno das redes sociais.

Tudo isto é embrulhado num drama que rapidamente se transforma num thriller e que no último terço apresenta sequências de perseguição de fazer inveja a muitos dos filmes de ação contemporâneos. Emocionalmente, o filme foge da vulgaridade manipuladora, ainda que, por vezes, as exigências verité façam certos momentos parecerem demasiado crus, pouco polidos e até desarticulados na atuação. É talvez na sucessão de reviravoltas dos eventos que o espectador sinta algum esticar da corda temática do argumentista/realizador, que no final ganha contornos rocambolescos nas coincidências e revelações. mas tudo isso é de certa maneira abafado por um crescimento interno do trio principal de personagens, que à medida que vão superando obstáculos valorizam cada vez mais a busca pela verdade, custe o que custar.
No final temos assim uma bela surpresa vinda da Índia, que não espantaria mesmo nada se fosse o ponto 0 para uma nova vaga de filmes do país com ambições eletrizantes, mas não fantasistas, além fronteiras.


















