Antigo governator da Califórnia, Arnold Schwarzenegger não se encaixa no perfil desconstruído de representação de “masculinidade” na filmografia do realizador não binário francês Bertrand Mandico (que acata o uso do artigo definido “o” sem incómodo), adotado pela “Cahiers du Cinéma” como um dos seus eleitos depois de emplacar “Les Garçons Sauvages” (2017). Apesar da sua verve iconoclasta, mediada por uma devoção estética ao legado da BD Métal Hurlant”, a provocativa mirada de Mandico sobre tramas de aventura evoluiu (em disparada) nos trâmites pop ao flertar com um dos mais famosos heróis encarnados pelo Maciste da Áustria: o bárbaro Conan. O sSeu novo filme chega a atribuir um “n” a mais ao assumir o nome do guerreiro da (fictícia) nação chamada Ciméria, criado nas revistas literárias batizadas de pulps dos anos 1920 e, mais tarde, em 1970, importado para os comics da Marvel.

Convocado para o 76. Festival de Locarno, depois de uma bem-sucedida estreia na Quinzaine des Cinéastes de Cannes, “Conann” desenha uma carreira comercial em meio a uma efeméride importante para o herói de quem toma o nome e o perfil emprestado. O Conan original soprou as velas dos seus 90 anos em 2022, gerando uma corrida nos leilões de bibliófilos do mundo em busca de exemplares raros da revista “Weird Tales”, em especial a edição de Natal de 1932, onde o exército de um homem só (foi assim que Arnold deu vida a ele) fez a sua primeira aparição, no conto “The Phoenix on the Sword”.

Houve ainda um recente regresso da longa-metragem de 1982, com Schwarzenegger, sob a direção de John Milius e com roteiro de Oliver Stone, nas salas e no streaming. O seu criador, o escritor Robert Erwin Howard (1906-1936), idealizou Conan para ser um ladino, mercenário, assassino de aluguer e, paradoxalmente a isso tudo, um signo do Bem, ainda que moralmente torpe.

Tal torpeza foi uma das poucas coisas que sobraram do legado de Howard na releitura proposta por Mandico, a partir de uma direção de arte extravagante (como já lhe é peculiar), mas de um exuberante capricho plástico. No lugar de um espadachim besuntado de suor, com uma tanga de pele de urso como vestimenta, o cineasta preferiu reinventar o vigilante da (ficcional) Era Hiboriana dos pulps como uma mulher, colando um coletivo de atrizes de diferentes idades para dar vida a tal hero… heroína nos estágios distintos da sua vida. Christa Théret vive a Conann de 25 anos; Sandra Parfait, a de 35; Agata Buzek, a de 45; e (a ótima) Nathalie Richard, a de 55. O espírito bélico esboçado nos contos de Howard (e nas bandas desenhadas de Roy Thomas) repete-se na (re)encarnação proposta por essas intérpretes, incluindo Claire Duburcq, que é a Conann aos 15 anos.

Assim como em “After Blue (Paradis Sale)”, vencedor do Prémio Fipresci da Crítica em Locarno, em 2021, o clima de fábula é onipresente na nova longa de Mandico, com uma proposta nada usual para as sequências de luta e perseguição. Somos apresentados ao legado de Conann a partir da visão de um Deus caído que a persegue. As alegorias criadas nessa perseguição simbolizam a luta histórica das mulheres contra o sexismo, num misto lisérgico de thriller capa & espada e filosofia, banhado de irreverência. 

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
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