Falecido prematuramente em 1994, enquanto filmava o célebre “O Carteiro de Pablo Neruda” (“Il Postino“), o ator, realizador e poeta Massimo Troisi é, ainda hoje, uma fonte de inspiração. E não apenas em Itália, onde deixou marcas no teatro, televisão e cinema ao longo dos seus 41 anos de existência, mas igualmente em todo o mundo, particularmente pelo filme oscarizado assinado por Michael Apted, que em Portugal chegou a estar vários anos em exibição no extinto cinema mundial.

Estreado em Berlim no ano em que se celebraram os 70 anos de Troisi, “Massimo Troisi: Somebody Down There Likes Me” é uma eficaz homenagem a um homem cujo coração o traiu precocemente, mas cuja obra – particularmente como realizador – merece ser revisitada.

Ao leme deste documentário, que mistura imagens de arquivo e dos filmes de Troisi, com outros que se inspiraram nele (como Sorrentino), encontramos Mario Martone, que fez uma pausa na encenação teatral (brevemente vai lançar um trabalho baseado em Shakespeare) e nos filmes de ficção (como os recentes “O Rei do Riso” e “Nostalgia“) para lançar este documento sobre a maestria do napolitano que reformulou os conceitos de comédia de forma disruptiva, quer como ator como realizador.

E Martone começa por o comparar a Truffaut, para mais tarde especificar como Troisi quebrou a tendência de representação do homem italiano (macho latino per se) no cinema da época. Do arrogante, charmoso e conquistador passou-se para uma nova imagem de sensibilidade e até insegurança. Em sentido oposto, os papéis das mulheres ganharam também um olhar mais contemporâneo, já longe do modelo femme fatalle e “bomba” de sensualidade, representando esta nova forma de apresentar a “guerra dos sexos” no cinema de forma inovadora e refrescante.

Nunca esquecendo os tempos de La Smorfia, a sua colaboração apaixonante com Roberto Benigni e Ettore Scola, a ligação a Anna Pavignano (parceira de vida vários anos e coargumentista de muitos dos seus filmes), os momentos finais já nas filmagens de “Il Postino” e, claro, os problemas cardíacos que se manifestaram bem cedo na vida do ator/realizador, Martone constrói assim um filme para a posteridade, que não encerra de todo o tema, mas permite despertar um novo interesse pela carreira de Troisi e reavaliar a sua obra.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
massimo-troisi-por-martoneMartone constrói um filme para a posteridade, que não encerra de todo o tema, mas permite despertar um novo interesse pela carreira de Troisi e reavaliar a sua obra.