O processo de luto e o sentimento de culpa, mesmo quando não se tem responsabilidades, tem sido algo frequentemente explorado no cinema e em todas as culturas, com viagens frequentes entre o real e o onírico, e uma queda frequente em terrenos da superstição e espiritualidade, não apenas para encontrar explicação para a tragédia, mas como uma zona de conforto e imaginação que as coisas prosseguem de alguma maneira para os falecidos depois da vida terrena culminar.

No Japão, e um pouco por toda a Ásia, é frequente entrar em cena o território do místico, o dito além, com espíritos – nunca em paz – a vaguearem por entre os vivos, pelos menos até terem a luz (resolução) que os encaminha para o descanso eterno.

Também no Japão (e Tailândia principalmente), esta ida turbulenta para o além gera frequentemente objetos de terror para os vivos, mas esse não é o caminho escolhido por Takeshi Kogohara, que faz a sua estreia nas longas-metragens com um filme onde místico e onírico são os passos seguintes para confrontar o real: o sentimento de culpa de um homem perante a morte da sua irmã mais nova, e que agora procura o seu espírito num túnel que se diz estar apinhado deles.

Kogohara prefere o críptico ao linear e cose a sua narrativa num vai e vem entre passado e presente, sempre com uma palete de cores sombria e rasgada a vermelhos nada reconfortantes nessa visita ao luto e subconsciente.

Mas apesar das intenções e de esteticamente estarmos perante uma obra fortalecida na sua permanente aura de mistério, “Nagisa” nunca se descola de um sentimento de curta-metragem enfiada na pele de uma longa-metragem escura e encriptada artificialmente por uma fotografia demasiado escura (ao ponto do espectador não vislumbrar nada) e uma montagem de múltiplos cortes (cada um deles, uma nova mentira) que faz o espectador perder-se num caminho que nunca tenta tocar no melodrama.

No mais, o cineasta demonstra potencial, mas este “Nagisa” fica longe na concretização à concetualização a que se propõem.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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