Faz pleno e preciso sentido histórico, na genealogia do audiovisual, que a longa-metragem mais assustadora da América Latina em 2022, exibida no 37º Festival de Mar Del Plata, a partir de uma conexão com a produção mexicana, fala de pessoas de baixos rendimentos: “Huesera”, de Michelle Garza Cervera. Desde o teatro Grand Guignol dos franceses, “aterrorizar” é um verbo de ação sociológica. Primo interclassista do melodrama, egresso do movimento de migração social das populações rurais para os grandes centros urbanos, em decorrência da mecanização proporcionada pela Revolução Industrial, o terror nasceu como um refluxo estético (naturalista) do descontrole (e, com ele, o medo) na transformação da urbe, com a instalação das bolsas de pobreza. Fora o filão das casas assombradas, signos aristocráticos, as arenas das narrativas de horror são, em geral, espaços ocupados por pessoas de salários baico, ou de uma classe média em fase de achatamento, como se vê de Poltergeist(1982) a Trabalhar Cansa(2010).

Dracula e Nosferatu são ricos, descendentes da nobreza europeia, mas as suas vítimas, não. Jason de Friday 13th era um menino dos subúrbios de Crystal Lake, cuja mesada era curta. Freddy Krueger, então, nem seguro social tinha. E quando o Diabo resolve azucrinar Ellen Burstyn, em The Exorcist (1973), a sua personagem, a atriz Chris MacNeil, não é uma diva de Hollywood e, sim, uma estrela em ascensão de Georgetown. Ou seja, na história das narrativas, o assombro é um sintoma da exclusão, da luta de classes, do lumpenproletariado, num funcionalismo simbólico no qual o horror passou a ser usado, politicamente, como um instrumento de estudo da opressão pelo dinheiro e da falta de perspectivas económico. Não é por acaso que países do chamado Terceiro Mundo foram dragados pela tentação de usar assombrações como metáfora das suas carências e do seu bolso vazio. O Brasil inventou Zé do Caixão assim, por meio da mente brilhante de um realizador autodidata, José Mojica Marins (1936-2020), que vislumbrava em pérolas como À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964), um meio de expor o fanatismo que brota da falta de recursos para a educação. Só o Brasil preferiu falar do seu raquitismo financeiro (oriundo de corrupções, malversações e governos fardados) pela via do folhetim, nas telenovelas, fazendo chorar em vez de dar sustos.

No México, a situação foi similar, fosse com os filmes da PelMex, fosse com telenovelas (María La Del Barrio, para citar uma), porém, com espaço para um pretérito perfeito para o cinema de horror, com criaturas como Popoca (de La Momia Azteca) ou como a entidade de La LLorona”, uma produção dos anos 1960, de René Cardona). Sem essa mistura do pranto e do espanto, agravada por uma realidade de contradições pautadas pelo tráfico de drogas e por ações de sicários (matadores de aluguer), o terror contemporâneo daquele país jamais poderia ter produzido algo tão bem-acabado como Huesera”.  

Recorrentes aparições de aranhas de pernas delgadas são apenas um sinal (a mais) de perigo no filme que mais gelou as veias de Mar Del Plata até agora, endossado por elogiosas críticas em Tribeca (NY) e prémios em montras para narrativas da fantasia, como as competitivas de Sitges, na Espanha, e Morelia, terra natal dessa aterrorizante jóia, chamada Huesera”. Ao fim de uma sessão na Argentina, a já citada realizadora Michelle Garza Cervera, explica que o título se refere a uma lenda urbana sobre uma mulher (pobre, é óbvio) que desencava esqueletos e junta pedaços de ossos para construir um ser; um Gólem, que ganha vida e se tornar seu protetor… e, sobretudo, filho. É da força simbólica da maternidade que vem a alma desta longa-metragem mexicana, na corrida a prémios da competição latina do evento portenho. Mas a sua realizadora mudou um pouco a essência do mito em que se baseou, com a forte influência do Polanski de The Tenant (1976) e do brasileiro As Boas Maneiras (2010).

Rituais pagãos são realizados no universo da periferia em que a protagonista de “Huesera” vai pedir ajuda a feiticeiras, num México de exclusões

Na trama, que dribla com códigos de identidade de género e debate conflitos sociais, a carpinteira Valeira (Natalia Solián) vive feliz com o marido Raúl (Alfonso Dosal), até o momento em que um trauma do passado passa a gerar estranhas visões e sensações de risco. O trauma em questão fala de um momento de sua infância em que ela, tomando conta do bebé de uma vizinha, deixou a criança cair. O regresso dessa memória provoca o espasmo de estalar os dedos ruidosamente, o que faz com que ela sinta uma presença sinistra, a qual faz a plateia saltar da cadeira. Ao mesmo tempo, ela passa a ter mudanças de humor, recorrendo a uma namorada da juventude, Octavia (Mayra Batalla), e a amigas da sua tia que fazem rituais pagãos. Rituais que fariam as bruxas de Macbeth desmaiarem de pânico. Aliás, a periferia onde esse ritual é feito, esbanja pobreza.

É surpreendente a maneira como Michelle (conhecida pelas curtas-metragens Abismale Isósceles) se põe entre o delírio e o realismo mais áspero, discutindo o direito das mulheres sobre o futuro dos seus útero,s ao mesmo tempo em que aborda homofobia, ação das milicias e determinismo. E fá-lo conectada plenamente à tradição do “Extra-Ordinário”, linhagem a partir da qual o mistério é expresso sem explicações verossímeis na ordem do sobrenatural ou de fontes científicas. Não é o Além que faz Valeria ver uma criatura cujos ossos se fraturam. Ou ver gente se atirar de prédios. É uma fratura na psiquê que se rasga sob muitos vetores, entre eles a sintomática económia do terceiro-mundismo que a cerca.

E Michelle cartografa esse universo com potência, som e fúria apoiada na fotografia de Nur Rubio Sherwell, e no impecável design de produção de Ana J. Bellido.  O resultado é um objeto visualmente arrebatador. E de roer as unhas de nervoso. 

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
huesera-o-fantasma-do-determinismo-socialA longa-metragem mais assustadora da América Latina em 2022