Cinco anos depois de se estrear na realização com “La Melodie, filme que o realizador Rachid Hami executou depois de ouvir relatos de crianças a tocarem música clássica em bairros desprivilegiados em Paris, o ator (transformado em cineasta) de origem argelina surge agora no Festival de Veneza, na secção Horizontes, com um objeto entre o suspense e o drama familiar, onde observa com elegância e maturidade –  sem nunca ceder à raiva (que se sente nos olhares, mas não nas ações) – diferentes níveis de fraternidade perante a complexa relação histórica entre Argélia e França.

E essa fraternidade é analisada em distintos quadrantes, primeiro quando um jovem recruta de origem argelina morre devido a uma praxe que corre mal na famosa Academia Militar de Saint-Cyr em França, e depois quando o cineasta e argumentista (o texto foi escrito a meias com o filósofo e romancista Ollivier Pourriol) se debruça nas relações turbulentas familiares, especialmente entre esse mesmo rapaz (Shaïn Boumedine, de “Mektub My Love“) com o irmão mais velho, interpretado pelo imparável Karim Leklou – que já este ano brilhou em “Son of Ramses”.

Tanto estudo de personagens como de relações sob a complexa posição de imigrante num país colonizador, onde temas como integração, fé, família, discriminação social e cidadania global cruzam-se de forma orgânica e não panfletária no enredo, “Pour La France” vai elipticamente compondo um tenso puzzle numa viagem emocional que nos levará da Argélia a França, passando por Taiwan, onde não só acompanhamos uma história coletiva de imigração, como individual de integração. 

E essa transição, essa viagem, é nos oferecida sob uma montagem em permanente ping pong entre passado e presente, com a tragédia e a contenção de sentimentos a entregarem ao espectador uma história eminentemente política, mas que se apresenta sempre como pessoal (baseada na própria experiência do cineasta), e sem qualquer vilanização e culpabilização fácil.

Por isso mesmo, talvez “Pour La France” merecesse estar na Competição ao Leão de Ouro, embora saibamos que existe muito pouca apetência dos grandes festivais internacionais em apostar em primeiras ou segundas obras na secção principal, remetendo este género de filmes ou para a Horizontes de Veneza ou para a Un Certain Regard em Cannes. Seja como for, “Pour La France” é mesmo a não perder.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
pour-la-france-conto-de-fraternidade-perante-a-complexa-relacao-historica-entre-argelia-e-francaEntre o suspense e o drama familiar, Rachid Hami observa com elegância e maturidade diferentes níveis de fraternidade perante a complexa relação histórica entre Argélia e França.