Chama-se de set piece uma sequência ou cena que torna um filme emblemático no imaginário da cinefilia, como é o caso, por exemplo, da corrida de Jeanne Moreau, Oskar Werner e Henri Serre em “Jules et Jim“; do foguete que atinge o olho do satélite natural da Terra em “Le voyage dans la lune”, de Georges Méliès; ou de James Stewart pendurado com pavor das alturas em “Vertigo“. No Festival de Cannes de 2022 nasceu um set piece de tons políticos, antitransfóbicos, que reverberou pelos média a dentro pela simplicidade que sintetiza toda a essência de um filme divisor de águas para a História do seu país, no audiovisual, e para a própria Croisette: “Joyland”. É um take de motoreta em que uma personagem carrega um boneco de papelão de uma personagem cuja arte desafia tabus – como a própria longa-metragem o faz.
É a primeira longa-metragem com DNA paquistanês numa competição oficial de Cannes, no caso, a Un Certain Regard, de onde saiu com o Prémio do Júri (presidido pela atriz e realizadora Valeria Golino). O seu realizador, Saim Sadiq, um estreante, ganhou também a Queer Palm. O seu filme é uma espécie de “Succession“, a série da HBO que virou coqueluche da TV e da streamiguesfera, só que com um componente de transgressão ao moralismo na figura de uma mulher trans em destaque.
O seu universo é o quotidiano da família Ranas, um clã amordaçado pelos ditames patriarcais que clama pela chegada de um bebé, varão, para comandar os negócios. Quem parece destinado a ser o líder é Haider (Ali Junejo), um sujeito de atitudes submissas na relação com os parentes. Ele tem um casamento arranjado, aparentemente feliz, com Mumtaz (Rasti Farooq), mas é incapaz de disfarçar a sua angústia. Porém, a sua vida tem a chance de mudar depois que conhece a artista trans Biba (Alina Khan, numa visceral atuação). Com ela, Haider vai aprender um outro modo de amar. Mas o que fazer com o seu casamento? O que fazer com Mumtaz, por quem nutre um carinho fraterno? A aparente solução é se enfiar de cabeça na Joyland do título: um parque de diversões onde tem contacto com danças e manifestações de alegria explícita.
Alina Khan é pólvora em cena. Quando aparece, detona todas as certezas (e todas as dúvidas) do público acerca da hipocrisia social que nos rodeia. E Sadiq nos arrebata ao criar um clima de romantismo nada ortodoxo entre ela e Haider, pautado sempre pela busca da honestidade. Na realização, o jovem cineasta encantou Cannes com a sua maneira delicada de se apropriar do espaço de Joyland, criando um senso de claustrofobia num lugar que parece talhado à extroversão e, não, ao intimismo e à introspeção. É uma inversão radical dos signos sensoriais.
Apesar da sua acurada habilidade em esquadrinhar classes sociais abastadas, o que lembra um pouco “Happy End” (2017), de Michael Haneke, “Joyland” carece de refinamento na construção das personagens, pois vemos a burguesia – muito bem, aliás – mas não se compreende integralmente qual é o sentimento que cada um dos membros daquela família sente diante de um convite à rutura dos laços morais com o passado. E, nisso, Saim Sadiq deixa a desejar, pois parece mais embevecido com os ângulos nada ortodoxos da fotografia de Joe Saade do que com o elenco inspirado que tem nas mãos. Essa desatenção garante ao filme uma fragilidade que vem do facto da sua trama estabelecer “parentela” (aquilo que a Antropologia entende como um laço não direto) com o folhetim televisivo moderno, a começar pela própria alusão a “Succession“, da HBO Max. É difícil olhar para este mundo sem pensar em telenovela. E elas, apesar de eventuais limitações imagéticas, na comparação com o cinema, têm, historicamente, uma preocupação fulcral com a tridimensionalidade das personagens, pois dependem disso para sustentar a sua longevidade no ar. E, nesse aspeto, a escrita de guião de Sadiq é frágil.
Mas o tendão de Aquiles que se dilata no filme não encobre as suas muitas virtudes narrativas – menos ainda a sua alta voltagem política -, com destaque para a engenharia sonora de Faiz Zaidi e Natha Ruyle. Há extrema potência sinestésica também na maneira como a montagem trata a banda-sonora de Abdullah Siddiqui.




















