À espera de um novo “Animal Kingdom“, tão feroz quanto aquele lançado por David Michôd em 2010, Cannes abriu as suas portas para os exercícios da Austrália pelo cinema de género sob a experiência de que algo tão possante como o Ostern, o western da Outback (designação pela qual o interior desértico australiano é conhecido), praticado nos anos 1970 e 80, possa brotar de lá, nas mais variadas latitudes.
A recente consagração de um dos principais escritores locais, Gerald Murnane (autor de “Inland” e “The Plains“), sempre na mira do Nobel de Literatura, ampliou o interesse por expressões narrativas autorais (e radicais) que tenham código postal em Sydney ou arredores. E era isso o que “The Stranger“, de Thomas M. Wright, prometeu a Cannes, na seara da Un Certain Regard: radicalismo. E até há. Mas há tanto, e tão mal lapidado, que uma narrativa policial aparentemente corriqueira cria uma série de obstáculos para si mesmo, ao complicar algo que, de caras, mostra-se simples. E aqui a complicação é mero exercício de estilo.
Lealdade, viga central das amizades, cheia de devires de honra quando aplicada ao universo masculino, é o vector de impelir deste thriller lento, a passos de cágado, mas de um domínio singular da engenharia sonora. A sua maior virtude é o desenho de som orquestrado por Andy Wright, capaz de criar sinestesia no meio ao arrastado processo de investigação da psique empreendido pelo guião, escrito pelo próprio cineasta.
Há força também em Sean Harris, que faísca em cena no papel de Teague, um silencioso criminoso com o passado enevoado. Ao conhecer um tipo igualmente taciturno e de índole similar num voo em turbulência, Mark (vivido por Joel Edgerton), Teague terá de enfrentar as falhas de outrora.
Plúmbea, a fotografia de Sam Chiplin carrega no cinza, no castanho em vermelhos escuros de pigmentos terrígenos para sugerir o quanto é pesada a figura de Teague, um transgressor em busca de superação. A possível amizade com Mark esboça um caminho de redenção, mas a polícia está a investigar um assassinato que ele teria cometido (e talvez algo mais) e, aos poucos, a conta-gotas, o guião revela o que ele teria feito e qual a ligação de Mark, o “estranho” do título, na sua vida.
Tudo é feito com insinuações, com vestígios e ilações. É um bom exercício para se renovar um thriller, mas, no ritmo em que a narrativa é conduzida, nada avança como deve.




















