Causou surpresa o facto de Mia Hansen-Løve ter estreado a sua mais recente longa-metragem, “Un Beau Matin” (One Fine Morning) na Quinzena dos Realizadores e não na competição oficial do Festival de Cannes, onde esteve, em 2021, com “Bergman’s Island“. Para uma carreira em plena ascensão, como a da realizadora de “Maya” (2018), soava natural que a competição pela Palma de Ouro acolhesse o seu visceral estudo sobre as escolhas de uma mulher diante das exigências da maternidade e do alvorecer de uma paixão.

Não há o que se comentar dos meandros políticos das escolhas de Cannes, mas há que se dizer que a Quinzena sempre recebeu de volta autores (Philippe Garrel, Claire Denis, Nelson Pereira dos Santos, Marco Bellocchio) que brilharam na corrida por troféus e regressavam, em um ou dois ou até três anos seguintes com um exercício de risco, de mais ousadia ou de mais inquietação do que seus trabalhos anteriores. E é isso que MHL (como Hansen-Løve é chamada pela crítica francesa) faz, apoiada na luz quase neoclássica, branda, da fotografia do mestre Denis Lenoir (Carrington). Ela voltou à Croisette com uma revisão da sua própria caminhada e saiu de lá laureada com o Prémio Label Europa Cinemas, de fomento à distribuição no Velho Mundo.
            
Cronista da falta de perspectivas aparentes, sempre debruçada sobre o “para onde vamos”, que serve como bússola a filmes como “L’Avenir” (Urso de Prata de Melhor Realização em Berlim, em 2016), Hansen-Løve fortalece-se, como narradora, filme após filmes, seguida por estruturas cada vez mais complexas, avessas a repetição.  “Bergman’s Island” esmerilhava pelo cinzel da delicadeza, impressionava pela construção do guião, sinuosa, hábil para se aprofundar nos conflitos existais das personagens e para estabelecer pontes semióticas com a História do Cinema. E essa delicadeza do filme anterior permanece em “Un Beau Matin“, mais refinado, mas sem conexões temáticas diretas com a memória cinematográfica. O que há de conexão com a tradição é o facto de ela exercitar as cartilhas do grande cinema francês classicista (aquele que se fez notabilizar nos anos 1950 e 60 como algo palavroso, conectado com angústias do dia a dia, sempre atento a sentimentos despedaçados ou magoados) de maneira pessoal, e arejada. Ou seja, é um cinema com gosto de anteontem, mas personalizado, doce, com uma corajosa mirada sobre a condição trágica de ser mãe. E tem Léa Seydoux. E uma Léa Seydoux no ardor das suas ferramentas cénicas.

 
Na cor mais quente do seu amadurecimento, a protagonista de “Um Beau Matin“, Sandra (o papel de Seydoux), é uma mãe solteira, viúva, que cria sozinha a filha, Esther (Elsa Guedj), após a morte do seu marido, cinco anos antes. Trabalhando como tradutora, ela cuida diligentemente do seu pai, Georg Kinsler (Pascal Greggory), um professor de Filosofia reformado, que perdeu a visão devido a uma doença neurodegenerativa.Essa doença, obriga Sandra a relocalizar Georg várias vezes de clínicas ou de instituições de assistência. Mas, a cada trânsito, os dois têm uma troca, sentimental e simbólica, que reforça a conexão que ambos têm com a palavra. Ele o faz via Platão e os pré-socráticos e, ela, pelos romancistas que traduz. Nesse ínterim, um amigo de outros tempos, Clement (Melvil Poupaud, um ator em evolução, preciso e sagaz em cena), aproxima-se dela. Mas não é uma aproximação apenas amistosa e, sim, um convite ao romance, embora ele seja casado e não esteja considerando a hipótese de deixar a mulher.

Mas não são bem-vindos os julgamentos morais em MHL, como já não eram nos conflitos do casal de “Bergman’s Island“. O problema em relação a Clement é o facto de ele ser incapaz de preencher os vácuos de Sandra. Vácuo que ela mesmo ampliou na sua incapacidade de separar o ofício de mãe com as suas responsabilidades para consigo, no querer, no desejo, no sexo. “Un Beau Matin” joga luz sobre as correntes que o amor familiar por vezes cria. Mas atenua essa cartografia emocional numa tocante sequência em que Sandra explica à filha o valor dos livros, da arte da palavra, como um oásis nas securas do mundo. É Mia sendo Mia, pois nos seus filmes, ela sempre celebra o conhecimento, a literatura, a ensaística, o cinema. E, aqui, ela o faz no seio do legado que a França deixou no planisfério cinéfilo, com a sua maneira muito peculiar de representar o engasgar do verbo amar.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
un-beau-matin-um-arejar-para-os-classicismos-francesesMia Hansen-Løve sendo Mia Hansen-Løve pois nos seus filmes, ela sempre celebra o conhecimento, a literatura, a ensaística, o cinema.