Começa bem mais uma incursão do sueco Ruben Östlund na sua carga contra a corrupção moral que a sociedade ocidental e as suas gentes, regidas pelo capitalismo mais selvagem, carregam como fardo. E esse “fardo”, transformado muitas vezes em brilhantismo e empreendedorismo, uma proteção ao indivíduo que se sobrepõe ao coletivo, é analisado com subtileza, embora sempre com uma enorme assertividade, pelo cineasta que já nos entregou filmes como “Força Maior” e “O Quadrado”. Porém, a certo momento o realizador prefere cair no óbvio com explosões de vómito e resíduos escatológicos em profunda erupção, dando uma dimensão tão absurda e surreal que aliena o espectador de qualquer mensagem política.

No centro de tudo pelo menos nos primeiros instantes, está um casal que se debate perante os estereótipos de género e a sua relação. Ela, uma modelo influencer, armadilha os seus encontros numa teia de manipulação onde acaba por ser sempre o namorado, também ele um modelo, a pagar as contas. Qualquer lógica redentora da resolução desse conflito, que efetivamente acontece, esbarra numa parede de barro molhado contemporânea  em torno do mundo das aparências e privilégios, aqui retratado e sublinhado ao jeito de um martelo pneumático. É então que ação do filme e as personagens dirigem-se para um cruzeiro onde a separação de classes, aliada ao capricho dos ricos perante a classe trabalhadora, produz uma série de cenas tão bizarras que nos levam ao cinema de Michel Franco, mas também de Ostlund.

Mas quando um acidente no navio acontece e alguns sobreviventes vão parar a uma ilha, os papéis de dominados e dominadores invertem-se, com novas relações de poder e uma rejuvenescida hierarquia social a dominar a equação. Por estas alturas, a mensagem de Ostlund e do seu filme é clara, numa clara crítica ao capitalismo. Porém, a forma como ele reorienta os peões do seu jogo de espelhos levam a um constante escrutínio moral da condição humana, saindo mais uma vez por cima a ideia que o poder corrompe. Ostland vai mostrando tudo isso entre gargalhadas e situações dramáticas diversas, mas no último terço o sarcasmo e o pensamento crítico inteligente dá lugar a outra coisa qualquer que torna qualquer mensagem politica e social do filme num mero exercício de entretenimento que se revela previsível.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
triangle-of-sadness-ruben-ostlund-rende-se-ao-obvioMais uma incursão do sueco Ruben Östlund contra a corrupção moral na sociedade ocidental, mas a certo momento tudo se torna tão absurdo e surreal que o espectador aliena-se de qualquer mensagem política.