Numa recente passagem pelo Brasil, para rodar “Il Traditore” (2019) no Rio de Janeiro, Marco Bellocchio definiu a sua obra ao C7nema como sendo uma dessacralização do ranço quase messiânico que o verbete “herói” assumiu nas narrativas ocidentais: “Heroísmo é uma palavra que eu atribuo a santos. Esses, sim, para quem crê, fazem um auto sacrifício pelo Bem. Já os políticos, não. Esses precisam salvar a si mesmos quando percebem que os seus impérios estão a afundar”, disse o realizador de 82 anos, que parece ter aplicado o mesmo raciocínio no seu novo projeto, “Esterno Notte”, exibido quarta-feira no 75º Festival de Cannes. “Interessa-me entender a dimensão trágica de homens que usam a palavra para desafiar um império”. É assim que ele vê Aldo Moro (1916-1978), antigo primeiro-ministro e presidente da Democracia Cristã, cuja morte é encarada como um saldo da violência do extremismo ideológico.
Responsável por filmes de culto como “Pugni in Tasca” (1965), ele retorna ao tema que já havia explorado em “Buongiorno, Notte”, pelo qual ganhou a láurea de Melhor Roteiro ao fim do Festival de Veneza, em 2003: as Brigadas Vermelhas. Esse era o nome da organização paramilitar de guerrilha comunista italiana formada em 1969 no movimento estudantil. Mas seu retorno ao assunto se dá num formato novo, pois “Esterno Notte” é uma minissérie de TV. Ou deveria ser. Passou na Croisette como se fosse, mas, na prática, é um longa de cinco horas com ganchos de virada que entram, a cada 60 minutos, como se fossem um break de episódio de televisão.
Desde que projetou “Carlos”, de Olivier Assayas, em 2010, Cannes vem abrindo gradual espaço para narrativas serializadas em sua programação, incluindo projetos de ganhadores da Palma de Ouro da década de 1990, como David Lynch (“Wild at Heart”) e Jane Campion (“O Piano”). Logo, não haveria razão de deixar o novo Bellocchio de fora da seleção deste ano, o que deu a “Esterno Notte” a fama de ser o primeiro achado da Croisette em 2022. Beira o esplendor o domínio que o cineasta – laureado com a Palma Honorária em 2021 – esbanja ao esgrimar com as lâminas narrativas da reconstituição histórica.
Ao pensar nas Brigadas Vermelhas, um fator específico intriga Bellocchio: a operação imputada historicamente às Brigadas e datada de 16 de março de 1978, na qual o grupo sequestrou Aldo Moro. Após um longo período de cativeiro e de negociações sem sucesso com o governo, a organização teria decidido pela execução do sequestrado. Aldo foi encontrado assassinado na bagageira de um carro no dia 9 de maio de 1978, no coração de Roma, a meio caminho entre a sede da Democracia Cristã e o Partido Comunista.
Em “Esterno Notte”, Bellocchio recria esse contexto de época em seis atos, começando pela cartografia da situação política da Itália em 1978, recontada com o apoio de um elenco em estado de graça, cujo pilar é Toni Servillo (o Gep Gambardella de “A Grande Beleza”) no papel do Papa Paulo VI. Quem vive Aldo Moro é Fabrizio Gifuni. A fotografia, repleta de chiaroscuros, sem o esturricado realismo habitual do cineasta (quebrado há 20 anos, no esplendoroso “L’ora di religione”), é assinada por Francesco Di Giacomo (de “Martin Eden”).
Nessa ventura híbrida de cinema e televisão, de tensíssima montagem, voltamos ao ano de 1978 e, nele, a Itália é devastada pela guerra: o primeiro governo apoiado pelo Partido Comunista (PCI) na História Ocidental está prestes a chegar ao Poder, em uma aliança histórica com o tradicional bastião do conservadorismo da nação, os democratas-cristãos (DC). Aldo Moro, Presidente da DC, é o principal apoiante deste acordo. Mas, no próprio dia da cerimónia de posse desta nova formação governamental, é sequestrado numa emboscada. A sua detenção se estende por 55 dias. São 55 dias de esperança, medo, negociação, fracasso, boas intenções e más ações. São 55 dias que acabam em tragédia, revisitada por Bellocchio com as liberdades ficcionais de uma poesia rascante. Lembra “Vincere”, o seu filme de 2009 sobre Mussollini, na maneira como ambos vão além do formato biográfico, cartografando épocas a partir das suas desilusões filosóficas.




















