Apesar de muitos o conhecerem pela sua carreira de ator, especialmente os que se lembram da saga “Twilight” e da personagem Eric, Justin Chon tem tido nos últimos anos uma carreira de realizador que se movimenta nas sombras do circuito indie norte-americano, destacando-se principalmente pelo seu “Gook”, estreado no Festival de Sundance em 2017.

É pelo terreno do comentário social com pitadas de realismo mágico e uma boa dose de melodrama que o seu cinema se fermenta, mas neste “Blue Bayou” o excessivo peso do apelo às lágrimas no último terço do filme quase arruína um castelo de cartas construído com algum vigor em torno de uma personagem marcada por um trágico passado, em sofrimento e luta pela sobrevivência no presente, e em risco de não ter futuro (pelo menos junto de quem ama).

São vários os temas que confluem em torno de Antonio Le Blanc (o próprio Chon) e a sua companheira grávida, Kathy (Alicia Vikander), e vão desde as dificuldades em sustentar a família e arranjar emprego, até aos estereótipos raciais e abusos familiares, não esquecendo os tais problemas com a emigração, que só aparecem na narrativa depois de um episódio de violência policial (outro tema delicado, convenha-se).

O objetivo claro do filme, que antes dos créditos finais não se cansa de mostrar casos reais, é apontar o dedo a um buraco legislativo nos EUA que permite que qualquer criança estrangeira, adotada por pais norte-americanos antes de 2000, possa ser repatriada. É o caso de António, um tatuador com cadastro por roubo, que depois de uma altercação com o antigo companheiro da esposa, um polícia, vê a hipótese de ser repatriado para a Coreia, décadas depois da sua adoção, ser estranhamente real.

As marcas do cinema indie, da estética às preocupações sociais enraizadas num território marginal – que é também ele uma personagem – transpiram da lente cinematográfica de Chon, numa mistura entre real e onírico, passado e presente. Neste trajeto, ambos os atores, Chon e Vikander, entregam boas prestações, tal como outros secundários, mas é inevitável no final não sentirmos a forma rocambolesca dos eventos, especialmente num jogo de emoções que se sente artificial para criar a ilusão de estarmos num thriller que pode acabar bem, quando temos consciência que para o filme ter verdadeiro impacto as coisas terão de fechar mal.

E por isso mesmo, todo o peso melodramático do último terço funciona como piso molhado para Justin Chon derrapar na sua luta permanente entre ambições artísticas e um cinema ativista enclausurado em emoções primárias.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
blue-bayou-justin-chon-derrapa-entre-as-ambicoes-artisticas-e-o-ativismoTodo o peso melodramático do último terço funciona como piso molhado para Justin Chon derrapar na sua luta permanente entre ambições artísticas e um cinema ativista enclausurado em emoções primárias.