Há algo de verdadeiramente magnético e enigmático em “Roots”, documentário de Tea Lukač que compete no Festival de Karlovy Vary na competição East of the West. Algo tão belo como assustador, atmosférico e perverso, mas – curiosamente – também encantado, um pouco como a floresta coberta por neblina que de tempos a tempo observamos e sabemos que esconde memórias e legados, pessoais e coletivos.
Apesar de seguir conversas ou meras presenças físicas de 7 diferentes grupos de passageiros de um táxi “selvagem” que circula pela região de Dvor, na Croácia, perto da fronteira com a Bósnia, “Roots” está munido de planos longos e fixos que nos aproximam de tal forma dos objetos filmados que transformam toda esta experiência cinemática num exercício pessoal da realizadora em preservar a memória do local onde nasceu (e saiu devido à guerra), como que escavando na terra até encontrar as raízes. Não, não é um filme sobre a guerra, diz Lukač nas suas notas de intenções, acrescentando que apenas tenta “mostrar histórias que lutam para não serem esquecidas”.
E essas histórias têm muitas vezes contornos mirabolantes, sejam de vespas ou outras pandemias, petições contra o lixo nuclear, e até profundos dramas como a de uma mulher que nos conta que foi entregue com 15 anos para um casamento contra a sua vontade. Mas há também conversas de crianças, inocentes a tudo isto, mascaradas e a falar de coisas quotidianas repletas de candura, bem como um momento musical que nos leva a heranças culturais.
O ato de repetição, tão comum no cinema de animação, é aqui aplicado numa forma de circulo giratório de corridas/clientes que o táxi vai transportando, cujo condutor nunca vemos. É ele que conduz, mas é a câmara que nos guia por entre um estudo que tem tanto de humano e pessoal, como de antropológico, social e mesmo político, e sempre sem gritar de forma militante sobre qualquer tema, como que apenas tentando fazer que aquelas histórias e momentos fiquem registados eternamente.
Um belo e introspectivo filme que conquista o espectador pela sua simplicidade e destreza.




















