Adeus a Béla Tarr (1955-2026), autor de “Sátántangó” e figura maior do cinema de autor

(Fotos: Divulgação)

O cineasta húngaro Béla Tarr, que deixa como legado uma obra radical e inconfundível, marcada por planos longos, tempo dilatado e uma visão profundamente ética e existencial do mundo, morreu a 6 de janeiro de 2026, aos 70 anos. 

Figura central do cinema de autor europeu, Tarr nasceu em Pécs, na Hungria, em 1955, e começou a filmar ainda na adolescência, atraindo a atenção do Balázs Béla Stúdió. Foi com Family Nest (1977) que se estreou nas longas-metragens, mas após uma fase inicial com olhar para o realismo social, a sua obra evoluiu para um cinema cada vez mais austero e metafísico. “Fiz a minha primeira longa-metragem aos 22 anos. Naquela época pensava que todos os nossos problemas eram sociais. Depois comecei a pensar que eram ontológicos e até cósmicos, e que o que fazemos é da nossa responsabilidade.”, disse o cineasta no Cairo, em 2022, quando recebeu o prémio de carreira. “Somos criadores e vítimas (…) Quando olho para a minha vida e os meus filmes, percebemos que cada filme é baseado na experiência do anterior. Cada filme também gera novas questões, e essas novas perguntas não podem ser respondidas se eu não seguir em frente. Assim que tiver uma nova resposta, posso fazer um novo filme…Esta sequência constrói-se, passo a passo, de um filme para o outro. Isto acontece quando começas a ter a tua própria linguagem.“

Em 2016, Béla Tarr passou pelo FEST em Espinho

Reconhecendo que o seu próprio estilo “desenvolveu-se pouco a pouco, a cada filme”, o húngaro disse que não tinha nenhum filme seu preferido, comparando-os a filhos: “Um cineasta é como um pai, e eu tenho nove filhos. Não posso dizer que tenho um favorito porque todos são meus.“

Com Damnation, apresentado no Festival de Berlim em 1988, afirmou-se internacionalmente como cineasta independente e o reconhecimento global chegaria com Sátántangó (1994), considerado um dos maiores filmes de todos os tempos. Em 2011, anunciou The Turin Horse como o seu último filme de ficção, distinguido com o Grande Prémio do Júri na Berlinale.

Dedicando-se desde então ao ensino e à experimentação artística, fundando em 2013 a escola internacional film.factory, em Sarajevo, e desenvolvendo projetos híbridos entre cinema, instalação e performance, Tarr recebeu inúmeras distinções, incluindo o Prémio Honorário da Academia Europeia de Cinema e em diversos festivais internacionais.

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