Filme de múltiplos olhares sobre um tema sempre comovente, “Liberté”, do catalão Albert Serra é uma obra que abre guerra em várias frentes. O desejo de transgressão e de choque abjeto são o pano de fundo de um exercício que faz uso do corpo enquanto máquina de prazer sexual, uma litania maquínica de deboche que se estende lentamente com a cadência de uma procissão. Com passagens pelo teatro – onde começou precisamente como uma produção para o Teatro de Volksbühne, na Alemanha – e por uma instalação de vídeo criada a pensar no espaço do Museu Nacional Centro de Arte Raínha Sofia, antes de se ter vindo passear pelo grande ecrã, o filme explora o imaginário de uma sexualidade excessiva sem outro fim senão o da sua própria gratificação, esse desperdício inútil de que falava o filósofo George Bataille, e que o realizador tanto refere nas entrevistas quem tem dado em torno do filme. Filmado com uma atenção felina, “Liberté” devolve-nos uma luxuriante imagem do excesso, uma visão de uma noite escura até ao aparecimento lento da luz da manhã, como se o desejo andasse sempre de mãos dadas com a sombra da Razão.
A ação decorre na França dos finais do século XVIII, numa mise-en-scène que segue um fio narrativo paredes meias com a abstração: um grupo de libertinos exilados da corte do Rei Luís XVI ocupa um bosque durante a noite, partindo daí rumo à aventura da transgressão. Trata-se, como bem se vê, de um flime de época, ainda que os adereços e elementos cenográficos não sirvam exatamente o propósito de evocação de uma era. Muito pelo contrário, insinuam antes um padrão – de gosto, de política, e de ética -, que Serra e a sua trupe libertina procura subverter com a insistência de uma força obsessiva e exaustiva. Situar o filme na França de Luis XVI é, pois, irrelevante: não se tratar de situar o filme dentro dos parâmetros culturais de uma época, importa antes corromper as paredes dos limites – quaisquer limites -, com a mesma atitude de quem arranca ervas daninhas de um campo viçoso. Que Serra faça do bosque – da natureza – um teatro pornográfico não deixa apesar disso de ter o seu peso, e é também nesse jogo constante entre Homem e Animal que essa ponta de liberdade se vai erguendo – e quebrando.
É verdade que os personagens de “Liberté” não procuram outra coisa senão um grande desaparecimento, um abandono de si mesmos em nome de uma transcendência estonteante, absoluta, religiosa, uma transcendência onde a compulsão subversiva de um erotismo narcótico – macabro – desliza o gume da sua faca até exaustão do simulacro. Qual simulacro? Este mesmo, esta civilização a que chamamos casa e que tem as paredes a arder. Mais do que um regresso à natureza, trata-se também de ritualizar essa viagem fazendo do corpo um instrumento de passagem – uma máquina de êxtase com os parafusos todos tortos. Longe de fazer da liberdade um avatar intempestivo da animalidade do instinto, o que Serra nos vem dizer é que é o pensamento maluco que desordena a matéria do mundo – uma espécie de triunfo imperial que submete o corpo aos desejos mais obscuros de uma alma poluída pelo suor da carne. No filme de Serra, a sujidade purifica, o mijo ilumina e o esperma mata a sede. Humano, ma non tropo.
Estreado recentemente entre nós na plataforma de streaming Netflix, “365 dias” dá a volta à questão de outra maneira. Se no filme de Serra está em causa uma grande recusa da ordem natural do mundo, no filme realizado por Barbara Białowąs e Tomasz Mandes damos de caras com a imagem oposta. Mas será que os extremos se tocam?
A narrativa, ancorada numa tradição com uma acentuadíssima sensibilidade pulp, acompanha o desenrolar de uma relação que provoca um desconforto deliberado. Ao contrário do filme de Serra, que mobiliza uma política do choque a partir de uma figuração explicita, no flime de Białowąs e Mandes a lógica é outra. Já não nos colocamos no papel de voyeurs do homem-libertino, mas assistimos ao espetáculo da “mulher-puta“, um espetáculo onde o corpo se transforma numa comodidade, inserido num sistema de objetos que enquadram o sexo enquanto exercício de luxo. Luxo do corpo e dos objetos: para a dupla dos realizadores polacos tudo isso tem que ser amplificado até à exaustão, e um dos aspetos mais salientes da narrativa prende-se (nem mais) com a negação da liberdade da sua protagonista. E agora?
Forçada a conviver com o seu raptor – um mafioso siciliano com corpo de capa de revista -, por quem Anna-Maria tem 365 dias para se apaixonar, é na sexualidade compulsória que a partir daí se desenvolve que o filme tira o tapete ao espectador mais sensível. Um dos lados mais “provocadores” de 365 tem justamente a ver com expressão de um prazer desprovido de subjetividade, um campo que desbrocha lenta e paradoxalmente na catividade – onde “Liberté” coloca a possibilidade de transcendência perante a transgressão, aqui esse gesto ganha forma na dissolução da personalidade de Anna-Maria num sistema de objetos onde tudo é luxo e produzido para o prazer.
A produção da Netflix constrói um simulacro de civilização, um aparato que procura a todo o custo manifestar fantasias de excesso – como se a realidade se transformasse numa fantasia que se materializa no desenho escultural dos abdominais, mas também na pureza branca de um iate. E assim sucessivamente. Na verdade, o espelho do êxtase nunca pára de se refletir e multiplicar: ao ver os libertinos que se debruçam no êxtase supremo do eucaliptal enquanto snifam um lenço com cheiro a sexo, como não me recordar daqueles que se debruçam na cocaína oferecida de bandeja numa das muitas festas que dão cor ao universo de “365“?
É verdade que no caso do catalão a apropriação de códigos do cinema de autor lhe confere uma aura de prestígio – afinal, também um luxo pronto a ser consumido e esmiuçado por uma esfera critica com sede de capital cultural – ao passo que a costela exploitation de “365” deita por terra qualquer hipótese de leitura mais distanciada. É como se o pensamento cinematográfico de Serra legitimasse o deleite numa crueldade bastante pronunciada – assistir a um Serra é, afinal, fazer a performance de espectador esclarecido –, precisamente o tipo de prazer transgressivo presente na produção da Netflix que tem sido sistematicamente negado e banido. Pela incapacidade critica de ler a personagem de Anne-Maria como uma evocação do desejo feminino em ser dominada e usada como um objeto? Ou a ponta de um icebergue paternalista perante os contornos mais suados do imaginário sexual feminino?









