Um drama biográfico de superação corre o risco de incorrer em espetáculo ou caricatura. Em I Swear, que conta a história de vida de John Davidson, o resultado não cede à glamourização do sofrimento. John é um ativista escocês que atua na consciencialização pública sobre a Síndrome de Tourette, condição com a qual convive. Crónica e incurável, a doença caracteriza-se por tiques motores e vocais que limitam a autonomia e são socialmente comprometedores. Uma das manifestações mais incomuns são os tiques em coprolalia, com expressão vocal involuntária de palavrões ou expressões ofensivas. Apesar de existirem opções terapêuticas com excelentes níveis de evidência, a síndrome continua estigmatizada e pouco conhecida.

É desse contexto que se insere Robert Aramayo, ator inglês que protagoniza a jornada da vida adulta de John na década de 1990 até à sua condecoração real pelos serviços prestados ao povo britânico. Uma interpretação de entrega física que valoriza o sofrimento contido: mesmo reproduzindo as estereotipias da doença, a postura e o olhar refletem um homem cansado, sem o reduzir a um catálogo de sintomas. Em busca de aceitação e normalidade, a postura encurvada durante as crises revela um homem numa tentativa de negação da própria visibilidade. A dedicação à personagem não se torna ofensiva e demonstra respeito pelos doentes. Durante os momentos de maior tensão, como quando é preso após insultar involuntariamente os polícias de “porcos” e dizer que estava a vender droga, Aramayo convence pela interpretação que articula naturalmente impulso involuntário, vergonha e impotência.

John é marginalizado ao longo da narrativa. Os pais frustram-se após os primeiros indícios da doença, ainda na puberdade. O afeto contamina-se com ressentimento e distância. O sucesso no futebol torna-se mera lembrança devido à falta de coordenação motora. As relações afetivas não suportam os períodos de instabilidade de um homem que precisa de supervisão na vida quotidiana. Vínculos profissionais são impensáveis para alguém que pode, a qualquer momento, gritar atrocidades aos superiores ou aos clientes que atende. O isolamento afetivo através da encenação reorganiza a posição social de um homem, mesmo no auge da sua forma física.

Aramayo responde demonstrando mais do que falando. O rosto cansado e a aparência de derrotado começam a mudar a partir do momento em que encontra incentivo e acolhimento em amigos próximos, que se tornam a sua verdadeira família. O realizador Kirk Jones aposta numa direção funcional e demonstrativa. Planos gerais ampliam a ideia de solidão no primeiro ato, centrado na adolescência. A fotografia acompanha essa composição. John surge pequeno no enquadramento, envolvido por uma iluminação progressivamente mais sombria. A dor é expressa pelo distanciamento da câmara, até culminar num plano zenital no momento de maior desespero, durante a noite.

Quando finalmente se cria um sentido de propósito, Aramayo abre literalmente as cortinas da sua vida, retratada no dia em que conhece Dottie Achenbach (Maxine Peake). A personagem torna-se um ponto de inflexão narrativa, incentivando-o à autonomia através da aceitação de si próprio. O filme refaz então a sua paleta, abandonando os tons escuros e incorporando cores mais fortes e vivas. Há uma abertura subjetiva que o próprio filme recusava, em contraste com o ambiente sombrio da casa de infância.

Ainda assim, I Swear segue a fórmula de uma biografia tradicional. Com um guião previsível, diálogos expositivos e uma decupagem pouco criativa, o drama acomoda-se sobretudo nas interpretações de destaque. O clássico plano-contraplano reduz as tensões e contém parte da potência da obra. Tudo parece programado para dar protagonismo ao ator principal, evitando distrações e sacrificando um resultado mais denso e expressivo. O esforço valeu a Robert Aramayo o prémio BAFTA de melhor ator. Por circular num circuito mais modesto do que o das grandes produções norte-americanas, o reconhecimento acabou por chamar a atenção de parte da crítica.

Num filme de consagração, Aramayo sai muito maior do que a própria obra. Já I Swear, embora respeitoso, não demonstra grande interesse em construir uma forma cinematográfica à altura das interpretações que alberga.

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Pontuação Geral
Guilherme Quireza
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