Os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, serviram como pano de fundo para a produção de alguns pequenos filmes gauleses que aproveitaram o frenesim da celebração para desenvolverem pequenas narrativas muito pessoais. Em Berlim, este ano, assistimos a uma pequena pérola nessa linha, “Rendez-vous de l’été”, e em Karlovy Vary, na República Checa, é a vez de outro filme de baixo orçamento surgir na mesma linhagem, ainda que explore, de forma diferente, na história e personagens, as micro histórias que tomavam vida no meio de uma maior. Com o nome “A Second Life”, Laurent Slama, um realizador que filmou anteriormente dois projetos sobre o pseudónimo Elisabeth Vogler (nome que foi buscar a “Persona” de Bergman), trouxe até Karlovy Vary alguns dos maiores sorrisos que o festival proporcionou e fê-lo sem que se possa dizer que estamos perante um crowd-pleaser. “Creio que muita da alegria que vemos no filme vem da personagem do Elijah, interpretada pelo Alex Lawther”, disse Laurent ao C7nema. “Ele é alguém fantástico e chegou às filmagens depois de trabalhar numa série, ‘Alien: Planeta Terra’. Passou 6 meses na Tailândia e estava tão feliz por filmar em Paris e no meio da multidão. Conheci-o 2 ou 3 dias antes das filmagens e, quando ele abriu a porta, estava com o cabelo cor de rosa. Estava perfeito, tinha a tonalidade do filme. Ele esteve em séries com personagens muito tensas, como no ‘End of The Fucking World’. Neste filme conseguiu um papel que vai mais de encontro a si”.

Em “A Second Life”, com apenas 1h16 minutos, seguimos Elisabet, uma mulher sempre a correr, de casa em casa, para entregar as chaves aos hóspedes. Com problemas auditivos, esta norte-americana que faz a sua vida em Paris está constantemente a ser pressionada pela empresa de aluguer de apartamentos que trabalha (ao estilo Airbnb), não apenas para conseguir boas classificações por parte dos clientes, mas para resolver todos os problemas que possam surgir durante o período de estadia dos hóspedes. Com o visto a caducar e a necessidade de manter o emprego, a sua vida frenética é estranhamente apaziguada com a chegada de Elijah, que não apenas mostra uma calma surpreendente perante tudo, mas porque a vai fazer redescobrir-se e a levar a vida com maior tranquilidade. E ele juntam-se mais dois amigos, que transformam o dia de Elisabeth em algo memorável.
Parte conto de fadas urbano, parte retrato documental de uma cidade invadida por um grande evento “A Second Life” conta com a estrela de “Titane”, Agathe Rousselle, no papel de Elisabeth, uma personagem que tem muitos elementos biográficos conectados a Laurent Slama. “Usei o pseudónimo Elisabeth Vogler para os meus primeiros dois filmes. Já não quis continuar a usar esse pseudónimo como realizador e decidi usar o primeiro nome para a personagem. O tema do filme é altamente pessoal e o usar o Elisabeth era uma forma de me identificar a mim próprio na história. (…) Era uma evidência para mim que queria fazer um filme com a Agathe Rousselle e escrevi o filme para ela. Queria fazer uma espécie de filme independente norte-americano, ao jeito francês, sobre alguém que vivia em Paris (…) A Agathe trabalhou muito no lado emocional da personagem. Queria muito trabalhar com ela, pois é alguém muito física. Aqui tem uma personagem mais subtil que a do ‘Titane‘, onde esteve incrível”.

Já a preparar um novo filme, no qual está a trabalhar há 3 ou 4 meses, Laurent detalha o projeto: “Estou a trabalhar num filme de reféns, um thriller. É a história de uma pessoa muito rica que é raptada nas ruas de Paris. Ele tem um cinto de explosivos, para não escapar, Quero fazer algo muito político sobre o presente, os super ricos e os pobres. Um filme de violência simbólica”.
As necessidades de um um thriller colidem um pouco com o cinema guerrilha de filmar nas ruas com multidões como Laurent tem feito. Por isso mesmo, ele diz que a forma do seu próximo projeto vai mudar, ganhando novas dimensões: “Quero explorar a tensão e fazer um thriller a sério. Preciso de um orçamento maior e quero experimentar algumas coisas em termos de produção. Há um filme que gostei muito, “A História de Souleymane”, que serve de inspiração pela sua forma de filmar modular. Eles filmaram grande parte do filme apenas com 3 pessoas e aproveitaram muito a vida das ruas”.
Um realizador sem diploma
“Descobri o cinema em adolescente e ele mudou-me. Quis fazer parte desse mundo. Não era bom na escola, que em França é muito difícil. Decidi não fazer isso e seguir o meu caminho, aprendendo por mim próprio a fazer cinema. Como não tenho diploma, sinto frequentemente que me falta algo oficial. Uma validação. Questiono-me sempre sobre a minha legitimidade em fazer cinema. O que me move agora é continuar fazer filmes, ainda que esteja fora do circuito de produção gaulesa. Faço filmes de baixo orçamento, desenvolvo-os muito rapidamente, filmando também assim. A outra forma que teria era de escrever durante 3 ou 4 anos, encontrar um grande produtor e financiamento. Isso pode levar muito tempo e não é para mim. Sinto que o cinema é uma questão muito prática e a minha preocupação é apenas fazer o meu próximo filme. Não gosto de intelectualizar as coisas, procuro acima de tudo emoções”.

