A Teacher: uma história de amor condenada desde o início

Kate Mara e Nick Robinson são os protagonistas da minissérie FX on Hulu, disponível em Portugal através da HBO.

(Fotos: Divulgação)

A história é muito simples, Claire Wilson (Kate Mara) é uma jovem, bonita e popular professora de inglês numa escola do ensino secundário que tem um caso com um dos seus estudante de 17 anos, Eric Walker (Nick Robinson). Os 10 episódios de curta duração abordam as complexidades de um relacionamento entre amantes e as consequências deste na vida de ambos e daqueles que estão ao seu redor.

Ora bem… qualquer fã de um bom drama com uma premissa erótica espera audácia e já que a história tem uma base um escândalo esperava-se isso mesmo, mais indecoro.

Mas a criadora e realizadora Hannah Fidell é, nesta segunda vez, contida a contar a história. Fidell adaptou a série, a história que contou em filme, num enredo protagonizado por Lindsay Burdge e Will Brittain, cuja estreia aconteceu no Festival de Sundance em 2013.

Vivemos numa época em que as mulheres ganharam uma voz diferente na sociedade, uma era de luta pela igualdade e pelo respeito. Mas por muitos movimentos #MeToo que ocorram, a história que a série conta será sempre vista como um assunto tabu e Fidell não consegue de forma bem-sucedida arriscar e contar, simplesmente aquela que, por muito estranha que seja, é uma história de amor.

Pesa muito o facto de que Kate Mara não é propriamente a atriz mais expressiva da indústria do entretenimento atual. Aliás, a inexpressividade e ausência de emoção de Mara é um dos grandes problemas aqui. É difícil criar empatia ou simpatizar com a história deste casal, quando da parte de um elemento do duo não transparece emoção.

Todos os clichés básicos marcam presença: a professora bonita e sexy num universo povoado por jovens com hormonas palpitantes, o fascínio do primeiro amor e um drama matrimonial impulsionado por problemas de fertilidade.

Voltando a recorrer à sinopse oficial “A Teacher explora as complexidades e consequências de uma relação predatória entre Claire Wilson, uma jovem professora do ensino secundário num subúrbio do Texas e o seu aluno, Eric Walker”. O próprio epítome não abona a favor da série. A relação entre a professora e o aluno não envolve abuso sexual, na medida em que o jovem [adulto] envereda na ligação com a adulta de livre vontade, mas obviamente que esta declaração é questionável e já foi e é sobejamente analisada e debatida pela Lei e pelas ciências que estudam o comportamento humano.

Os primeiros cinco episódios narram o desenvolvimento do relacionamento entre Claire e Eric, dos encontros às escondidas num carro a uma fuga romântica de um fim-de-semana.

As anunciadas complexidades não são assim tão complicadas. Claire está aborrecida com a sua vida e sobretudo com o seu casamento e Eric é um jovem de 17 anos, com a adrenalina efervescente, própria da idade e, apesar de não ser sexualmente inexperiente, experiencia o primeiro amor e vê na professora a mulher mais fascinante que já conheceu.

A relação é exposta, depois de Claire, de forma inocente ou não, contar a uma colega da escola que tem um namorico com um aluno.

Fidell procura enveredar nas consequências do dito abuso e para isso, sobretudo nos capítulos finais, recorre a vários saltos cronológicos, mostrando a forma como Claire e Eric tentam prosseguir com as suas vidas depois do escândalo. Claire é uma predadora criminosa e ninfomaníaca, condenada ao ostracismo pelos locais e limitada a relações agendadas via Tinder e depois, muito rapidamente, surge numa nova relação e é mãe de duas crianças.

Já Eric é tratado como um herói conquistador pelos seus irmãos da fraternidade, enquanto outros o veem como um sobrevivente de abuso sexual. Ambos os rótulos os corroem, pois não se identifica com eles. Já mais velho, Eric é uma espécie de cuidador de crianças com problemas comportamentais.

A Teacher” é na verdade um exemplo frustrante de uma história que não se compromete. Se a ideia é contar a história de uma mulher com vários problemas e que por causa deles, abusa de um menor, não o faz, porque na verdade, a abordagem que envereda é de uma história de amor. Há paixão, há tesão mas há sobretudo amor. Amor que a sociedade não sabe aceitar e que faz com que o casal se afaste e que o amor seja substituído por mágoa e desilusão. O fim, de que tanta gente fala, é de facto castrador mas verdade seja dita, a meio a história é fácil entender que o rumo que está a tomar não é o melhor.

A Teacher” podia ser misteriosa e sedutora mas não é. O rumo que toma é de declínio constante.

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