Nada em “Devils” é novidade. O universo cinematográfico e televisivo já contou inúmeras vezes histórias acerca do complicado, feroz e competitivo mundo das finanças e da especulação financeira no mercado de ações. A comparação podia ser feita com vários exemplos, mas no conteúdo maioritário, é com “Billions” que mais se assemelha.
E tal como em “Billions“, as personagens são tratadas com as características que merecem e que são um espelho do mundo de Wall Street: tóxicas, sem ética e incapazes de transmitir empatia.
Baseado no romance estreia “I Diavoli” de Guido Maria Brera, autor que conhece bem o mundo que retrata, pois fez parte dele. Trabalhou como gestor de fundos, gerente de trading, no setor do private banking e da gestão de ativos. Os direitos do livro foram adquiridos pela Lux Vide e Sky Italy e a série estreou primeiro em Itália, via Sky Atlantic, em abril de 2020.
A adaptação ganhou o título internacional de “Devils” (tradução literal do título italiano) e segue as aventuras e lutas colossais entre Massimo Ruggero (Alessandro Borghi), o chefe de operações e o seu mentor, o CEO da [fictícia] NYL, Dominic Morgan (Patrick Dempsey).
Entre estes dois homens, há ambição e vingança e depressa é ultrapassada a fronteira entre o profissional e o pessoal.
Se no princípio da história, Morgan é apresentado como exemplo a seguir e fã acérrimo de Ruggero, enaltecendo os feitos milionários deste, depressa o cenário de amizade bacoca é substituído por uma luta de titãs, povoada de imoralidade, de atitudes sombrias e de consequências nefastas. Os dois protagonistas são homens ricos no que à conta bancária diz respeito mas pobres no que à vida pessoal diz respeito. Vazios em relações humanas e frios nos seus sentimentos e ações.


Massimo Ruggero e Dominic Morgan são homens extremamente atraentes. Um elemento que poderá passar despercebido, mas que até nas finanças é importante, porque a imagem vende e rende dinheiro. São “diabos” ambiciosos e venais, disfarçados em estética aprumada.
O premiado ator italiano, Borghi assina aqui o seu primeiro projeto em língua inglesa, dotando a sua personagem de carisma e charme. Quanto a Patrick Dempsey, que será eternamente relembrado como o McDreamy de “Anatomia de Grey“, continua a fazer um uso excecional da sua bonita imagem numa personagem que é na realidade, medonha.
Como cenário de fundo desta podridão financeira, deste teatro de alto risco, está a política que tantas vezes se envolve e promove golpes financeiros. Estão organizações obscuras que se mascaram de justiceiros, portadores de noticias e transmissores de verdades como a Wikileaks.
Ao enredo maior, protagonizado pelas finanças, juntam-se mortes, assassinatos, jornalismo ambicioso, política corrupta, a crise na Argentina, as recessões na Irlanda e na Grécia e até o Fundo Monetário Internacional e os escândalos que envolveram o seu polémico ex-diretor, Dominique Strauss-Kahn e há tempo ainda para referir as revoltas e manifestações populares em Londres, Washington, Baviera e Roma. “Devils” é assim envolto em várias tramas com momentos de flashbacks e flashforwards que servem para enquadrar o seu tema central.
Se atualmente vivemos uma pandemia provocada por uma doença infeciosa, os efeitos nocivos deste mundo das finanças são à sua maneira uma pandemia, duradoura, persistente e que causou e causa vários níveis de crises, sobretudo sociais e económicas.
Tal como “Billions” ou filmes / séries do género, “Devils” não é para um público pouco paciente ou com pouca capacidade de concentração. Para esses será certamente um tédio, mas para quem gosta do género é um bom e competente apontamento.
“Devils”, realizada por Nick Hurran (“Sherlock”, “Fortitude”, “Doctor Who”) e Jan Michelini (“DOC – Nelle tue mani”, “Medici”), está disponível em Portugal, via HBO.

