O cinema francês voltou este ano em força no que toca à relação do país com o passado e com a Argélia, com quem esteve em conflito de 1954 a 1962.
Se por um lado cineastas como Maïwenn embarcaram em buscas identitárias – típicas na diáspora- no recente “ADN“, o realizador Hélier Cisterne leva-nos ao coração do conflito, em 1956, em sintonia com as ações da Frente de Libertação Nacional na Argélia. É aí que acompanhamos Fernand Iveton, um separatista e idealista de origem francesa (nascido na Argélia e comunista, como os pais) que é detido por colocar uma bomba no seu local de trabalho. Embora a bomba não tenha realmente matado ou mutilado ninguém, ele enfrenta a possibilidade da pena de morte num tribunal gaulês e é submetido a praticas de tortura.

O filme é apresentado ao espectador de forma anacrónica, tendo como ponto de vista primordial o de Hélène, mulher de Iveton, que o conheceu anos antes em Paris, e tem por base o romance publicado em 2016 por Andras Joseph, “De Nos Freres Blesses“.
Thriller, história de amor e filme de tribunal fundem-se neste trabalho de Hélier Cisterne que conta com dois pesos pesados do cinema europeu. De um lado o gaulês Vicente Lacoste (Amanda) e do outro a estrela luxemburguesa Vicky Krieps, dada a conhecer ao mundo por Paul Thomas Anderson e o seu “Linha Fantasma“. A dupla é marido e mulher num drama intenso de forte componente política que revisita um período ainda sob escrutínio, especialmente num momento em que “descolonizar a mente” está na ordem do dia.
François Miterrand e o peso da história
Foi nos anos 80, nos tempos de liderança de François Mitterrand, que o estado francês aboliu a pena de morte, mas em 1956, quando se deu o caso Iveton, Mitterrand era ministro da justiça. A 24 de março de 1994, quando era presidente de França, Mitterrand foi entrevistado por três jornalistas e uma das perguntas estava relacionada com o seu voto no caso Iveton. François Mitterrand respondeu: “Não posso responder a isso.” Ainda assim, Jean-Claude Périer – que chegou a ocupar a liderança da Gendarmaria e Justiça Militar – revelou aos mesmos três jornalistas que Mitterrand votou para que Iveton fosse condenado à morte. Com a divulgação pública de arquivos anteriormente confidenciais do ministério da justiça francês, ficou provado que Mitterrand deu o seu consentimento ao então presidente francês, René Coty, para executar Iveton em Argel.
Do livro ao filme

Segundo o realizador Hélier Cisterne, o ponto de partida do projeto foi quando deu de caras com o livro do Joseph Andras, “De Nos Frères Blessés”. “Um dia, a minha parceira, Katell Quillévéré [cineasta francesa], contou-me sobre um autor misterioso cujo pseudónimo era Joseph Andras, e que recentemente recusara o prémio Goncourt pelo seu primeiro romance sobre um ativista político e separatista, que foi “executado para dar o exemplo (…) A forma como abordamos a adaptação – o verdadeiro coração pulsante do nosso projeto – foi do ponto de vista desses dois seres excecionais, Fernand e Hélène, e os objetivos da sua vida, o seu ativismo político e a sua lealdade um ao outro. Eles estavam apaixonados, mas não eram cegos para o resto da vida. Começando com o casal e, em seguida, seguindo a sua jornada, as ideias políticas e filosóficas mais amplas do livro irradiaram-se e assumiram uma dimensão real e sólida: por exemplo, a cisão entre árabes e europeus; a vontade do Estado francês de reprimir qualquer tentativa de solidariedade; a justiça militar punitiva; democracia em tempo de guerra; Mitterrand e a pena de morte … O livro questiona a noção de luta política, a razão de Estado e a distinção entre intenção e ação.”
Já o protagonista, Vincent Lacoste, confessa que inicialmente ficou hesitante em aceitar o desafio de interpretar Iveton, especialmente por ser um papel muito diferente aos que estava habituado: “O compromisso de um homem pronto para morrer por uma causa tinha que ser verossímil, e eu estava cheio de dúvidas se conseguiria interpretá-lo de maneira convincente. O Hélier e eu conversamos longamente sobre isso e ele tranquilizou-me. Além da minha personagem, adorei o guião, especialmente a mistura de ativismo político e uma história de amor. Isso criou um dilema dramático que achei muito intrigante.”
Quanto ao trabalhar ao lado de Vicky Krieps, Lacoste adianta: “A história é tão dramaticamente violenta que sabíamos que tínhamos que criar um vínculo especial entre nós. O relacionamento deles é baseado no amor, mas é rapidamente superado pelo conflito político e pela tragédia da situação. Tínhamos que mostrar que o casal tinha um vínculo extremamente forte logo no início para que o que se seguisse parecesse ainda mais doloroso. Filmamos primeiro as sequências nas margens do rio Marne (os tempos felizes), e depois seguimos para a Argélia e o período mais sombrio da suas vidas.“
Quatro filmes sobre o conflito franco-argelino que vale a pena (re)ver:
A Batalha de Argel

Baseado em factos reais, e proibido em França durante largos anos, o vencedor do Festival de Veneza em 1965 assinado pelo italiano Gillo Pontecorvo é – sem sombra de dúvidas – o filme mais intenso, historicamente relevante, e importante em torno do conflito entre os independentistas argelinos que comandavam a Casbah (cidadela) e as forças coloniais francesas, que defendiam a permanência do dominio gaulês no território. O filme é todo ele um enorme flashback a partir de Ali, um membro da FLN – Frente de Liberação Nacional barricado num espaço fechado que tem de se render para sobreviver ao ataque dos franceses à sua casa.
O filme navega pela insurreição inicial, a resposta musculada francesa, até um crescendo de violência dos dois lados, nomeadamente com a colocação de diversas bombas dos independentistas nos bairros franceses e em assassinatos de gendarmes. A reação francesa foi dura, não só com a aplicação da tortura de forma a capturar dos criminosos como a colocação de bombas igualmente na cidadela onde viviam os árabes.
Um filme tremendo do ponto de vista histórico que funciona como drama, thriller e até filme de ação com toques militaristas.
Onde ver: Filmin
Longe dos Homens (Loin des Hommes)

Longe de Argel mas no coração do interior do país, com o pano de fundo do conflito franco-argelino, um professor primário de origem andaluza (Viggo Mortensen) é confrontado com a chegada de um policia que lhe entrega a missão de entregar um criminoso (Reda Kateb) às forças da lei de uma cidade próxima.
É nessa viagem dos dois homens, de plena descoberta de vivências, por paisagens inóspitas que ambos vão confrontar um país em plena revolução e guerra, demonstrando os perigos e o pior que há nos homens em tempos de conflito.
Onde ver: Filmin
Chronique des années de braise

Vencedor do Festival de Cannes em 1975, o filme traça – desde o final dos anos 30 – até ao início da guerra da Argélia (1954) o longo percurso de eventos e lutas que contribuíram para o sofrimento do colonizado, primeiro em termos políticos e depois em confrontos militares.
Durante a sua exibição no Festival de Cinema de Cannes, o realizador Mohammed Lakhdar-Hamina foi ameaçado de morte por partidários da Organização do Exército Secreto favoráveis à Argélia Francesa. Michel Poniatowski, ministro do interior, enviou uma brigada de segurança para a proteção de Lakhdar-Hamina e dos seus três filhos presentes no festival. Várias ameaças de bomba ocorreram no evento.
Fora da Lei (Hors la loi)

Esta incursão em 2007 do cineasta Rachid Bouchareb começa com imagens do pior que colonialismo teve, quer na deslocalização de famílias, quer na repressão violenta a quem se levanta contra o estado. Acompanhando uma família, obrigada a sair da sua terra de sempre devido a burocracias e falta de registos de propriedade, o filme praticamente começa com a morte da figura paternal, o que vai instigar nos seus três filhos (Massoud, Abdelkader e Saïd) sensações de repulsa para com a república francesa. Anos mais tarde, Massoud (Roschdy Zem) alista-se para a guerra na Indochina e Abdelkader (Sami Bouajila) está detido em França. Já Saïd (Jamel Debbouze) vinga o pai – assassinando um dos responsáveis pela expulsão dos seus terrenos quando eram ainda crianças.
Os três voltam a reencontrar-se em França, quando Saïd decide viajar para lá com a Mãe. Estes sobreviventes do massacre de Sétif (1945 ) organizam-se então como uma resistência em Território Francês, tentando angariar colaboradores para os seus ideais. Aos poucos vemos a história dos conflitos em solo francês, onde eram frequentes as guerras nos cafés (entre partidários da FLN e da AMN), os assassinatos particulares entre os membros dos grupos rivais, enquanto a perseguição francesa a estes insurgentes (como seriam hoje definidos) se acentua. E à medida que a história avança, mais imponente e estrutural se torna a organização destes homens, que vão ao socialismo e ao islamismo buscar alguns conceitos e que a seu tempo chegaram a ter apoio (não oficial) do partido comunista francês.

