Leap of Faith: o “Deus do cinema” e a criação de “O Exorcista”

“Leap of Faith: William Friedkin on The Exorcist” foi exibido na última edição do Motelx, encerrada a 14/09”.

(Fotos: Divulgação)

É curioso que uma conversa com o realizador de um dos maiores pesadelos sonoros e visuais do cinema dedique largo tempo a figuras bem mais sossegadas: Magritte (cujo “Império das Luzes”, aliás, inspira o icónico cartaz do filme), Vermeer, Caravaggio, Monet, do lado da pintura; Stravinsky, Schonberg, Weber, entre outros, do lado da música – para terminar com um longo elogio do espaço meditativo do “Jardim Zen”, de Quioto.

É o que acontece no documentário “Leap of Faith: William Friedkin on The Exorcist”, de Alexandre O. Phillipe, onde o realizador William Friedkin evoca o imaginário que esteve por trás da criação de alguns dos momentos mais poderosos engendrados dentro do género horror em toda a sua história. Ironicamente, a explicação de Friedkin para a realização de um filme cuja atmosfera de pestilência, horror e desespero continua a impressionar é de que foi guiado pelo “Deus do cinema” – uma forma simbólica de denominar uma série de decisões acertadas baseadas no instinto.

E já que que se está em domínios etéreos, o traço mais crítico que se preserva sobre “O Exorcista” é respondido logo no início. Passados quase 50 anos, ainda é de notar a forma conservadora como o argumento, baseado num livro escrito pelo devoto William Peter Blatty, repõe a ordem estabelecida da história de uma atriz ateia divorciada punida com a presença do diabo na carne da filha através da reverência à igreja católica (o beijo de Reagan no colarinho do padre no final, por exemplo). Friedkin declara-se logo no início um homem de fé, dizendo que não podia tratar cinicamente um material desta ordem. Mas que não se exagere a sua carolice: numa discussão de bastidores (não relatada no filme) cineasta e escritor divergem e o primeiro termina por eliminar passagens dizendo que o objetivo “não era glorificar a igreja católica”.

Pelo meio permeiam, obviamente, momentos para o anedotário, como quando Max Von Sydow não conseguia fazer de forma intensa a sequência do exorcismo e Friedkin pergunta-lhe: “é preciso chamar Ingmar Bergman?” Num outro, o realizador lembra os incríveis métodos dos cineastas em tempos idos (George Stevens a dar tiros de espingarda para aterrorizar verdadeiramente o elenco de “O Diário de Anne Frank”) e confessa que para extrair uma reação emocional de William O’Malley, um padre que não era efetivamente um ator, dá-lhe uma verdadeira bofetada; num outro momento, onde Jason Miller ouve subitamente o telefone e leva um enorme susto, foi o “método de Stevens” o responsável! “Esses métodos não seriam aceites hoje em dia!”, diz Friedkin sorridente.

Outra história dá conta da sua desilusão com Bernard Herrmann, a estas alturas exilado em Londres depois de ter tido a sua banda sonora para “Cortina Rasgada” recusada por Alfred Hitchcock. Para início de conversa, o velho mestre não teve grandes problemas em espetar-lhe com um “bom, talvez eu possa salvar esse monte de m*!”, referindo-se ao filme. A partir daí, certamente, o diálogo entre os dois seria sofrível e o realizador de “O Exorcista” ficaria dececionado com a ideia de Herrmann em incluir um órgão de igreja na música do filme. “Que coisa mais clichê!”.

A música, como a extraordinária edição sonora (Friedkin não exagera ao chamar os processos de criação de “laboratório de experimentação”) tem um papel fundamental naquele que é um filme cuidadosamente construído em “crescendo”. Assim, outra “vítima” das escolhas do realizador foi Lalo Schifrin, cuja banda sonora feita para o filme parecia demasiado barulhenta e levou Friedkin a optar por utilizar acordes do polaco Krzysztof Penderecki. Essa mistura de delicados cuidados de construção estão perfeitamente representados num dos mais belos (e muitas vezes desapercebido) momentos do filme – o passeio de Chris MacNeil (Ellen Burstyn) da saída do trabalho até a sua casa, onde crianças fantasiadas no Halloween e freiras com vestidos esvoaçantes acentuam a calmaria antes da tempestade sublinhadas pelo piano poético de Mike Oldfield e o seu “Tubular Bells”.

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