À procura de abrigo e os anjos do inferno: “Gimme Shelter”

O clássico dos irmãos Maysles e Charlotte Zwerinque, sobre a “tour” dos Rolling Stones que termina com a tragédia de Altamont, é exibido no IndieLisboa, no dia 4

(Fotos: Divulgação)

Uma das famosas declarações a propósito de Altamont veio da cantora dos Jefferson Airplane, Grace Slick: “as vibrações eram más (…) Eu estava à espera das adoráveis vibrações de Woodstock, mas elas não chegaram. Era algo completamente diferente”. Não é à toa: no clássico documentário sobre o fatídico concerto de 1969 que completa 50 anos, Slick aparece perdida, pedindo calma à multidão cada vez mais descontrolada e cuja “segurança” a cargo dos Hells’s Angels deixariam inconsciente o próprio cantor e guitarrista do grupo, Marty Balin.

Desde o início com uma produção improvisada, o grande alinhamento de concertos que era para ser uma espécie de sequela californiana do mítico Woodstock, realizado quatro meses antes, surgia com uma organização tão precária que nem casas de banho ou postos de cuidados médicos adequados tinha. Quando a segurança de um evento que reuniu 300 mil pessoas acabou na mão dos “motards” muito pouco comprometidos (ou por vezes demasiado comprometidos) e pagos em cerveja dos Hell’s Angels, tomou forma a receita do desastre.

Antes disto, os irmãos Albert e David Maysles e Charlotte Zwerinque seguiam a “tour” americana dos Rolling Stones. Entre  planos que deixam entrever as performances de Mick Jagger a partir do palco (e até a explosiva participação de Tina Turner no Madison Square Garden) e os próprios Stones a reverem as imagens tempos depois, o filme vai avançado para Altamont.

A partir daí há um registo em direto impressionando primeiro pela diversidade da contracultura: pelo público há de tudo – gente com a cara pintada, danças insólitas, pessoas andando nuas, algumas com bebés (!), outras em notórias “trips” de LSD ou qualquer outro produto propício a experimentações.

Apesar de muita gente a divertir-se e uma audiência repleta de meninas sorridentes, as más vibrações são cada vez mais captadas pela equipa de operadores: lutas, jogos de empurra, espancamentos, turbulentas invasões de palco (alguns eram simplesmente “jogados” dali para fora) e uma tensão palpitante que vai tomando cada vez mais forma depois que os Burrito Flying Brothers (a banda “country rock” de dissidentes dos Byrds), que ainda conseguiram divertir o público, dão lugar aos Jefferson Airplane. Os Greateful Dead, sabiamente, recusam-se a tocar depois de saber do episódio de Marty Balin.

A tensão já está insuportável quando os Stones sobem ao palco – já muito atrasados. Jagger sente a confusão e tenta: chama “irmãos e irmãs”, pede calma, implora por diversão; enquanto isso a edição do filme opta por mostrar o contraste do discurso com as caras tensas dos Hell´s Angels, contando uma história paralela ao que se desenrola no palco. E, então, durante (curiosa ironia) “Under my Thumb”, paralisada, no entanto, dá-se o momento fatídico quando um dos “motards”, mais tarde identificado como sendo Alan Passaro, persegue um homem com uma faca, sendo ainda visível duas punhaladas antes de os dois desaparecerem no meio da multidão. A vítima, o afroamericano Meredith Hunter, de 18 anos, veio a falecer. Anos depois, como Hunter estava armado, Passaro se safaria em tribunal como tendo agido em legítima defesa.

Simbolicamente a cena significava o fim dos anos 60 – epítome reverberada por um artigo sensacionalista e repleto de incorrecções publicado pela Rolling Stone um mês depois. Mas, com Charles Manson, Guerra do Vietname e outras tragédias de uma época efervescente, retrospetivamente parece óbvio que os Estados Unidos entravam, pelo menos em termos de imaginário, numa nova era. O sonho estava morto.

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