Ted Lasso: as aventuras de um yankee na Premier League

(Fotos: Divulgação)

Repescando a personagem estereótipo do técnico de futebol americano que apareceu pela primeira vez num par de vídeos para a NBC Sports, Jason Sudeikis entrega na série da Apple + uma das mais conseguidas personagens da sua carreira recente, a do ianque que abandona a sua nação e o desporto que conhece para se aventurar em Inglaterra no futebol e liderar o balneário de um fictício clube da Premier League.

Comédia simples esquartejada em episódios de pouco mais de 20 minutos, Ted Lasso chegou à plataforma de streaming com três episódios de uma só vez, os quais funcionam solidamente como episódio piloto e nos introduzem perante uma personagem que apanhado numa guerra familiar e um processo de divórcio milionário acaba a treinar um clube de futebol inglês, mesmo sem saber muito bem as regras desse estranho jogo que parece fascinar todos menos os norte-americanos.

Capacidades humanas não faltam a Lasso, tal como o desejo contínuo de aprender, isto num mundo onde o desporto moderno é apenas mais uma forma comercial de empresas fazerem negócio, servindo ocasionalmente como campo de batalha para guerras de poder dentro das próprias famílias.

E esse é o ponto de partida já que Lasso é levado da América para Inglaterra após Rebecca (Hannah Waddingham), a esposa do dono de um clube de futebol, descobrir as traições do marido e assumir a liderança da equipa fictícia do AFC Richmond, que disputa a liga principal. Lasso não sabe nada de futebol e até ignora que existem apenas duas partes e que os jogos podem acabar empatados. “Melhor ainda”, diz ele de forma confiante numa conferência de imprensa, acrescentando que o seu trabalho assim está facilitado. Esta ignorância e ingenuidade é perfeita para o plano da nova dona do clube, que é de destruir a equipa, a única coisa que o seu infiel marido realmente adorava.

Mas essa destruição não será tarefa fácil, pois o carisma e pureza de Lasso e o seu otimismo omnipresente vão conquistando aos poucos os jogadores e a faminta e a arrogante imprensa britânica que se alimenta das desgraças alheias. Aliás, o melhor de Lasso é mesmo a manutenção do negativismo longe de si, encarando cada obstáculo como um desafio, mas não no sentido habitual de competitividade que geralmente se vende em terras do tio Sam.

Nesta jornada por terras britânicas, onde se brinca até com quantos países existem “nesse país” (Reino Unido), Lasso é acompanhado pelo seu colega Beard (Brendan Hunt) para ajudá-lo neste desafio monumental. No balneário encontra todo o tipo de pessoas, desde a estrela moderna do futebol Jamie Tartt (Phil Dunster), ao paternal capitão de equipa Roy (Brett Goldstein), passando pelo abatido e longe de casa Toheeb Jimoh (Sam Obisanya), não esquecendo o discreto Nathan  (Nick Mohammed), um faz tudo (roupeiro, responsável pela relva do estádio, etc) que ganha uma nova dimensão (e existência) com a chegada do americano.

Mas é fora do balneário que a maior luz – além de Sudeikis – se encontra: é em Keely (Juno Temple), uma influencer que namora a vedeta da equipa Jamie Tartt, que a série encontra um outro brilho e dinâmica, ajudando esta o nosso protagonista a demonstrar ainda melhor o seu lado humano.

Por isso tudo e por mais estranho que pareça, mesmo sem nunca ser verdadeiramente hilariante, Ted Lasso merece uma olhadela cuidada, pois embora não seja “a última coca cola do deserto” nestes tempos de entretenimento em todo o lado é certamente portadora de uma das capacidades mais raras nos tempos que correm: tem coração e não precisa ser melosa ou excessivamente melodramática para o mostrar.

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