Inspirada pelo atual contexto que tanto mudou as vidas de todos nós, a rentrée da Cinemateca tem vindo a celebrar os reencontros e as nossas relações comunitárias com um ciclo adequadamente intitulado “E a Vida Continua”. Sob um calendário diferente do habitual adaptado às circunstâncias, a programação deste mês não retoma os ciclos que foram interrompidos em março, movendo-se antes por dois eixos temáticos que se interligam.
Por um lado, está a ser exibido um grupo de filmes atravessados pela própria ideia do regresso, ou do reencontro, e também da relação entre o individual e o coletivo, em particular de tudo o que constrói e mantém uma comunidade ou um sentido de comunidade. Por outro, através da evocação de um punhado de estrelas marcantes da galáxia do cinema, para os quais se perfaz este ano o centenário de nascimento – Gene Tierney, Montgomery Clift, Maureen O’Hara, Walter Matthau e Alberto Sordi –, tem-se feito uma viagem por um período alargado do cinema americano e europeu, percorrendo as épocas clássica e pós-clássica.
Estas são as nossas sugestões para a segunda semana de sessões em julho:
The Odd Couple (Mal por Mal… Antes com Elas, 1968) – 7 de julho, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos grandes sucessos da dupla Jack Lemmon/Walter Matthau foi este The Odd Couple, dirigido pelo hoje relativamente esquecido Gene Saks. Baseia-se numa peça de Neil Simon que já fora um êxito na Broadway e conta o relacionamento de dois homens de meia idade, recentemente divorciados, que decidem partilhar um apartamento. As personalidades contrapolares dos dois homens – como é regra do bom “buddy movie” – alimentam os imbróglios da intriga.
The Quiet Man (O Homem Tranquilo, 1952) – 10 de julho, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. A Irlanda vista e filmada por John Ford, com uma história que começa como um conto de fadas (a visão de Maureen O’Hara nos campos verdes do Technicolor) e termina com a mais memorável e divertida cena de pancadaria entre dois homens (John Wayne e Victor McLaglen) que o cinema mostrou. Pelo meio fica a simples história de “um homem que quer ir para a cama com uma mulher”, como disse Ford, o mais belo beijo da história do cinema, e o mais feliz happy-end de sempre.
Stars in My Crown (1950) – 11 de julho, 22h00, Esplanada. Este é, talvez, o mais belo e perfeito exemplo daquilo a que se chama “americana” (evocação nostálgica do passado dos EUA) no cinema. É também o mais pessoal dos filmes de Jacques Tourneur, que, para o dirigir, aceitou um salário simbólico. Praticamente sem história, Stars in My Crown é uma coleção de vinhetas da vida numa pequena cidade no interior dos EUA no século XIX, que retrata sentimentos e emoções e tem como ponto de partida a vida de uma criança com o seu pai, pregador, na vila que os adotou, onde o tranquilo deslizar do tempo é por vezes quebrado pelo drama, como uma tentativa de linchamento pelo KKK.

Spartacus (1960) – 11 de julho, 22h00, Esplanada. Adaptação de um livro de Howard Fast que conta a odisseia de Spartacus, chefe de uma revolta contra o Império Romano. Destaque para as composições de Kirk Douglas no papel titular, de Laurence Olivier, como senador Crasso, que persegue Spartacus com as suas legiões, de Charles Laughton e de Peter Ustinov (Oscar de melhor ator secundário, uma das quatro estatuetas conquistadas pelo filme). Um dos grandes épicos de Stanley Kubrick, que voltará a ser exibido a 13 de julho, pelas 18h00, na Sala M. Félix Ribeiro.
Crin-Blanc (Crina Branca, 1953) & Le Ballon Rouge (O Balão Vermelho, 1956) – 11 de julho, 15h00, Salão Foz. Estas duas curtas-metragens de Albert Lamorisse dos anos cinquenta estão associadas à infância: Crin-Blanc (Palma de Ouro de curta-metragem em Cannes) foi filmado na região da Camarga, no sul de França, como a fábula de um rapaz que doma um cavalo branco. Le Ballon Rouge é uma história de bairro (o parisiense Ménilmontant) e segue um miúdo pelas ruas de Paris, onde um balão vermelho se torna motivo de inveja. Os ambientes meticulosamente trabalhados e as situações narrativas simples tornam a palavra quase desnecessária nestes filmes de Lamorisse. São filmes de aventura poética, um com a depuração do preto e branco, outro com o calor da cor.

