Recursos Desumanos: Cantona às cabeçadas ao neoliberalismo

(Fotos: Divulgação)

Projeto com o selo do canal Arte está disponível na Netflix 

Quando as gaivotas seguem uma traineira, é porque pensam que as sardinhas serão atiradas ao mar“. Esta frase enigmática proferida por Eric Cantona numa conferência de imprensa, logo após ter pontapeado (em estilo Kung Fu) um adepto do Crystal Palace em 1995, foi um dos pontos mais marcantes da carreira de um futebolista com tanto de genial como de enfant terrible.

Por isso, quando vemos agora o antigo futebolista transformado em ator a distribuir cabeçadas nestes Recursos (Des)Humanos (Dérapages, originalmente), o caráter explosivo da persona Cantona encaixa plenamente no seu Alain Delambre, um homem de 57 anos completamente desgastado e ressentido pelos quatro anos de desemprego que vem amargando.

Com idade avançada para o mundo laboral, Alain só encontra biscates como ocupação, pelo menos até o diretor de uma multinacional decidir encenar uma situação de sequestro para testar a lealdade de alguns membros do conselho diretivo da sua empresa.

Adaptação do best-seller homónimo de Pierre Lemaitre , o filme começa em território do drama antes de visitar o thriller com um toque de heist movie e até o filme de tribunal e de prisão, nunca perdendo a sua vertente política de crítica ao neoliberalismo, e como as circunstâncias e o desprezo moldam e levam as pessoas a transformações pessoais radicais, sobressaindo o nosso protagonista que em todos os momentos nos coloca entre o vilão e a vítima, um perigo e um reflexo dos restos descarnados de um capitalismo selvagem que cospe os seus peões quando estes já não têm tanto para oferecer.

Uma nota final para a personagem da esposa de Alain, bem interpretada por Suzanne Clément, também ela uma vítima de todo o sistema, naquilo que chamamos um dano colateral em cadeia, e para a opção estilistica de uma narrativa eliptíca, com recurso a uma narração do protagonista em constante quebra da quarta parede. Decisões um pouco padronizadas para os tempos que correm, mas que funcionam minimamente para cativar o público a esta era de espetáculos televisivos movidos a reviravoltas.

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