Na edição online do CPH: DOX, que o C7nema seguiu com particular atenção, alguns documentários abordaram temas sensiveis através da apresentação de novos factos e testemunhos que nos fizeram repensar alguns momentos chave da história recente de três países.
Terrorismo

Recheado de anacronismos, com recurso a imagens de arquivo e reconstituições da vida e dos passos de Omar el-Hussein, o documentário Attacked – The Copenhagen Shootings acompanha – em jeito de desconstrução/construção do pensamento radical e a criação/nascimento de um terrorista, um jovem de 22 anos que há cinco anos atacou o centro comunitário de Krudttønden e a sinagoga de Copenhaga, matando duas pessoas.
A Dinamarca mudou desde então e o jornalista – já com créditos na construção de documentários para a TV, procura neste trabalho entender o que leva alguém a cometer tal ato, as suas motivações e como vários eventos da sua vida foram moldando a sua personalidade. O realizador, Nils Giversen, mostra igualmente que a tragédia poderia ser evitada, até porque o rapaz há muito estava sinalizado como potencial elemento radicalizado, sendo do conhecimento das forças da lei o amor e seguidismo que tinha com o Daesh e a sua propaganda.
Vagueando entre as muitas pessoas que conheciam Omar el-Hussein, várias testemunhas, documentos confidenciais e imagens de videovigilância, o filme funciona como um manual de vida que conduziu a um dos capítulos mais sombrios da história da Dinamarca.
Golpes

Quem é que faz um golpe de estado às 21h00 numa sexta-feira e usa uma das pontes de Istambul como principal arma estratégica, isto numa hora em que por toda a cidade existe trânsito? “Cheira a esturro“, parece querem dizer o norueguês Jørgen Lorentzen e a turca Nefise Özkal Lorentzen neste A Gift For God [literalmente, “Um presente de Deus”], sublinhando que o golpe sofre de uma profunda orfandade de um líder global. É que no final das contas, depois da insurreição militar, foi surpreendentemente fácil para o Presidente Erdogan impedir as mudanças de poder, saindo reforçado na sua liderança e iniciando uma transição de maior ligação a países como a Rússia, China e Irão, afastando-se dos EUA e União Europeia, tradicionais aliados através da NATO.
Dividido em cinco capítulos e munindo-se de imagens de arquivo, depoimentos de refugiados políticos, ex-militares, do líder da oposição Fethullah Güllen e de aliados tradicionais de Erdogan, o documentário oferece uma visão diferente de um regime e um país que, no final do processo, e de forma concretamente cega, investigou mais de 500 mil pessoas, deteve 34 mil militares e 96 mil cidadãos, dos quais 319 eram jornalistas (fechou-se 189 meios de comunicação). Mais de 10 mil professores e advogados foram demitidos e 3003 escolas & universidades foram encerradas.
Revoluções

Verdadeiro crowd-pleaser de engenho documental, mas técnica colada à ficção e até marketing publicitário, I Am not alone relata de forma magistralmente embelezada (e romantizada) a mais bela revolução recente. Falamos da Arménia, país onde à beira da “trafulhice” (ou “chico-espertice”) governamental, os dois mandatos de um primeiro-ministro são esticados e contornam a lei para estender a sua presença no poder.
É longe da capital que o ativista e político Nikol Pashinyan, aproveitando todo o seu conhecimento revolucionário e o poder das redes sociais, inicia um percurso a pé contra o que designa como regime oligarca e corrupto. As aventura do ativista são narradas na primeira pessoa, no seu percurso a pé rumo à capital, onde até não faltou um pequeno cão vadio que virou estrela. Pouco a pouco, mais pessoas se vão juntando a ele numa caminhada onde uma canção pop se torna fundamental, mas sserá quando entra em Yerevan – e percebe que sem estudantes não há revolução – que temos a versão cor de rosa de Maidan – onde a ação da polícia, do povo e do próprio regime no poder encaixam para um “feel good doc” pouco improvável de acontecer.
E, no melhor, ou talvez no mais impensável, temos ainda depoimentos dos afastados do poder pela revolução, como o do ex-primeiro-ministro Serzh Sargsyan, que entre jogadas de xadrez lá nos vai também explicando resignado como foi afastada da liderança do país.
Um documentario sui generis de uma revolução muito particular.

