Aproveitando a longa duração da versão filme (2h46), A Herdade foi dividida em episódios para ser exibida ainda este ano no canal Arte, em França, e na RTP. Os episódios estão entretanto disponíveis na plataforma Filmin, mas – desenganem-se – não possuem novos conteúdos. Trata-se apenas de uma dosagem mais faseada de uma obra que, globalmente, é corpulenta, vagarosa e ambiciosa.
Não reprovemos os esforços de Paulo Branco, produtor, e de Tiago Guedes, realizador, pela ambição de fazerem desta Herdade alguma espécie de épico. O cinema nacional é frequentemente criticado pela sua pequenez, portanto não devemos cair na insolência de criticar tudo e o seu contrário. Esta é uma saga em torno de uma abastada família tradicional portuguesa, em cujo latifúndio mergulhamos por três vezes, em 1946, em 1973-74 e em 1991. Com um escopo desta extensão, aplauda-se o quão atento e cativante o retrato desta evolução histórica consegue ser, antes de se lhe apontar defeitos.
O patriarca desta família e proprietário destas terras é João Fernandes, convincentemente interpretado por Albano Jerónimo, que o impregna de um certo gravitas, de uma força que o torna um líder intimidante. Mas quando é todo um modo de vida que está ameaçado pela força da História, nem o líder mais resistente consegue sobreviver. E João não se vê ameaçado apenas por forças exteriores, sejam elas ventos políticos que mudam de direção ou dificuldades financeiras, mas também por tensões intrafamiliares, tão destrutoras quanto as contextuais.
O que se passa dentro e fora da herdade joga então com similitudes e contrastes entre a vida doméstica e a vida sociopolítica. Entre nascimentos e mortes, revoluções e contrarrevoluções, o enredo tece vidas muito credíveis e palpáveis, conseguindo equilibrar a evolução das personagens ao longo dos anos. Tal implica, por um lado, o desenrolar de intrigas e conflitos dentro das fronteiras da herdade, e, por outro, a evolução político-económica de um país para lá delas, que viveu metade do século XX sob regimes não-parlamentares.

No seu melhor, o trabalho do realizador, em muito ajudado pela fotografia magistral de João Lança Morais, sabe conjugar estes dois lados engenhosamente, construindo cenários em que a domesticidade se confronta com a sociedade. A sequência que melhor ilustra esta habilidade é sem dúvida a noite de casamento da cunhada de João, na véspera da revolução de abril, e o culminar das tensões – políticas e familiares – no momento em que João e a sua mulher, Leonor (Sandra Faleiro num papel tocante), regressam do casamento e assistem à marcha de tanques, na noite escura, ao som de Zeca Afonso.
Se esse é talvez o centro desta obra, quando ela se desloca para o terceiro plano temporal da narrativa, tudo muda. Não só os dramas familiares não têm a profundidade para justificar a sua duração, como a tentativa de trazer as personagens para uma época que nos é mais próxima falha rotundamente no tom e nos detalhes de caracterização, havendo um empobrecimento repentino do guião e da subtileza da realização. A começar pela hierarquia de personagens, que neste terceiro ato devia ser reestruturada de modo a fazer justiça às personagens secundárias, o sabor que esta secção deixa é amargo. Apenas a fotografia se mantém terreno fértil, o que faz dela a verdadeira espinha dorsal desta produção e a afasta do registo mais televisivo e conservador em que o argumento infelizmente cai.
As referências que inevitavelmente têm sido lançadas a propósito d’A Herdade erguem pontes com dois outros “épicos”, um cinematográfico e um literário: Il Gattopardo, de Visconti, e Os Maias, de Eça de Queiroz. O primeiro é relembrado pela afinidade temática – também nele se retrata uma classe social em recessão e um patriarca que vê ser testado o seu poder latifundiário; o segundo tão só por um pormenor de enredo que, contudo, parece aflorar nas narrativas portuguesas com uma recorrência suspeita. Nem uma referência nem outra, no entanto, evocam adequadamente o tom desta obra, que não se confunde nem com o rigor viscontiano, nem com a ironia queirosiana. É sobretudo uma sobriedade natural, que consegue ser resplandecente e sombria, que caracteriza os melhores momentos d’A Herdade.

