Em virtude da crise global do COVID19, o CPH: DOX decidiu lançar sua edição 2020 numa versão digital. Uma edição que o C7nema está a seguir com particular atenção
Ninguém diria que a luminosa e aparentemente idílica Villa Baviera que nos aparece pela frente neste Songs of Repression poderia esconder um passado tão negro.
Anteriormente apelidada de Colónia Dignidad, este pedaço de terra instalado no sopé da Cordilheira dos Andes, no Chile, ecoa através dos seus habitantes as atrocidades vividas no passado sob a liderança de um nazi pedófilo transformado em pastor, Paul Schäfer, que instalou ali uma comunidade em 1961 cujo modus operandi se identifica claramente como uma seita.
Mulheres e homens estavam separados, pais e filhos igualmente, e multiplicaram-se os abusos físicos e sexuais durante décadas, tudo camuflado sob a orientação de liberdade religiosa. Posteriormente, já com Pinochet na liderança do país (1973), o local foi ainda utilizado para a tortura e assassínio de dissidentes políticos que contrariavam as ideias do ditador. Depois da sua queda e do retorno da democracia (1990), a Colónia ali permaneceu afastada do escrutínio público até 1997, e só em 2005, quando Schäfer, foi finalmente detido na Argentina e recambiado para o Chile, as atrocidades cometidas encontraram algum sentido de justiça.

Assinado por Estephan Wagner e Marianne Hougen-Moraga, Songs of Repression recorre a filmagens executadas durante 18 meses com os residentes atuais para nos contar histórias de horror sem qualquer artimanha sensacionalista. Aos poucos, somos assim confrontados com os depoimentos daqueles que sofreram em primeira mão os abusos, os quais geraram consequências trágicas até hoje, pois as mentes destes homens e mulheres não conseguem ainda separar ou unificar elementos básicos da condição humana.
Veja-se como exemplo o caso de Helga, uma mulher – vítima de abusos no passado – que nos explica como ainda hoje não consegue ver amor e sexo de mãos dadas, isto porque este último elemento sempre lhe foi apresentado como uma punição, um castigo. Ela mesmo diz que apesar de amar o marido e não querer estar com mais ninguém, encontra no sexo uma barreira psicológica para a “normalidade”.
Com um recurso estilístico muito orientado em close-ups e planos de detalhe, que contrariam com os planos de conjunto da paisagem verdejante e sempre solarenga, Songs of Repression revela ser um documentário doloroso e extremamente focado em campos paradoxais, com a beleza das paisagens e a alegria das músicas em perfeito contraste com a negritude das histórias do passado, onde o abuso e a condição das mulheres e homens não difere nada da história narrada em The Handmaid’s Tale (História de uma Serva).
No final, ficamos assim perante aqueles que depois de “despirem a alma” e contarem as suas tragédias pessoais e coletivas, tentam esquecer, perdoar e seguir em frente. Mas existem igualmente aqueles que permanecem enclausurados nas memórias e revelam-se incapazes de avançar e ter vidas longe do trauma e da dor.

