O filme estreou no Festival de Sundance e vai chegar brevemente à Berlinale
Noémie Merlant em Jumbo
Jumbo, filme que marca a estreia nas longas-metragens da belga Zoé Wittock, tem dado que falar, tendo mesmo sido comparado – nas primeiras críticas – a obras como Christine de John Carpenter ou Crash de David Cronenberg, embora se demarque do género de horror e se posicione mais em terrenos coming of age com uma dose de erotismo e drama para acompanhar uma rapariga que tem de aprender a lidar com um desejo peculiar.
“Jumbo é muito particular no seu universo e estética. É a história de uma jovem, interpretada pela Noémie Merlant, que se apaixona por uma atração de um parque de diversões.“, disse-nos em Paris a atriz Emmanuelle Bercot (Meu Rei), ela que no filme interpreta o papel da mãe da jovem, e que terá de aprender a viver e a lidar com a condição da filha (objectofilia – condição em que as pessoas se apaixonam por objetos inanimados).

Emmanuelle Bercot em Jumbo
Um dos casos reais e mais famosos desta parafilia é o da norte-americana Erika LaBrie, que em 2007 se casou com a Torre Eiffel. Bercot relembrou-nos essa história e mostrou-se fascinada por ter sido convidada a incorporar um tipo de personagem que nunca lhe tinham proposto fazer: “A história é louca e original e fiquei muito contente por me terem proposto o papel de mãe dessa rapariga, alguém que é simples, popular e longe da inteletualidade [com uma postura na vida muito ‘rock n’ roll’], mas alguém que se sente completamente ultrapassada pelos desejos da filha [e que não sabe bem como lidar com isso]”.
Já Noémie Merlant, que deu nas vistas no ano passado em Retrato de uma Rapariga em Chamas, explicou ao C7nema que a sua personagem é sui generis e que devido à sua condição “é muito difícil manter uma relação com a mãe e com as outras pessoas ao seu redor”: “Ela tem problemas em lidar consigo e com o seu desejo particular. Esse desejo centra-se numa máquina [que ela denomina de Jumbo], um objeto. Ela apaixona-se por ela e tem de lidar e assumir esse desejo perante a mãe e todas as outras pessoas.“
A génese de Jumbo

Noémie Merlant em Jumbo
Foi nos EUA, onde estudou, que a belga Zoé Wittock encontrou num jornal um artigo sobre uma mulher que se apaixonou e casou com a Torre Eiffel. Intrigada, ela começou a investigar sobre a questão, especialmente “sobre o raciocínio psicológico por trás” desse amor e atração.
Contactou diretamente com Erika Eiffel [nome após o casamento], por Skype e e-mail, e esta falou-lhe de outras pessoas que se enquadram na apelidada “objectofilia” [estima-se que existam pelo menos 40 pessoas no mundo que “sofram” desta condição].
Clinicamente, essas pessoas não sentem que esse seu desejo seja uma doença e foi por aí que a ideia de Jumbo foi crescendo. Fazer um documentário sobre o tema nunca foi equacionado, pois a jovem realizadora “queria entender o ponto de vista dessa mulher, entrar nos seus olhos e ver as coisas da maneira que ela as via“.
Colocar todo o enredo num parque de diversões foi assim a solução perfeita que Wittock encontrou para criar uma história completamente ficcional, podendo jogar esteticamente, como pretendia, com as cores, os movimentos e o som característicos do local.

