Sessões na Cinemateca – Escolhas de fevereiro

Nesta rubrica do C7nema encontram-se as nossas recomendações mensais sobre a programação da Cinemateca Portuguesa.

(Fotos: Divulgação)

São quatro os principais nomes em torno dos quais a Cinemateca organiza a sua programação de fevereiro: o cineasta francês Jean Grémillon, a estrela de Hollywood Lana Turner, a inesquecível Anna Karina e Manuel Jorge Veloso, o recém-falecido músico que deu som ao Cinema Novo Português. Entre descobertas e revisitações, os filmes em que estes e outros artistas colaboraram preenchem mais um mês repleto de oportunidades para apreciar bom cinema.

Jean Grémillon – O Outro Gigante

Pela primeira vez na Cinemateca, a obra de Jean Grémillon é reunida numa retrospetiva – obra essa que atravessa todas as etapas do cinema clássico francês, desde o período mudo ao momento em que nascia a Nouvelle Vague, em fins dos anos 50. Em todas estas fases o seu cinema deixou marca, como provam em particular estes seis filmes:

La Petite Lise (1930) – O primeiro filme sonoro de Grémillon é um extraordinário objeto cinematográfico, na medida em que não obedece a nenhuma regra, nenhum código narrativo, típico dos grandes filmes deste período de transição. A história começa num campo de forçados da Guiana Francesa e continua em Paris, para onde regressa um dos forçados, que vai em busca da filha. Grémillon domina totalmente a novidade que era a linguagem do cinema sonoro, com uma segurança e mestria impressionantes na fusão do realismo com a evasão. Sessões: Quinta-feira, 6 de fevereiro, 19h00 // Quinta-feira, 20 de dezembro, 19h00

Daïnah La Metisse (1931) – Este foi um dos filmes “malditos” de Grémillon, pois desagradou aos produtores e foi reduzido de 120 minutos para 90, à revelia do realizador, que o renegou. Quando foi restaurado em 1986, o material aproveitável era ainda mais curto (50 minutos), embora fosse ainda possível acompanhar as grandes linhas da narração. Mas mesmo mutilado, Daïnah, La Métisse é um objeto surpreendente. A ação tem lugar num transatlântico de luxo, no qual viajam a protagonista e um prestidigitador negro. O simples facto de dois negros serem os protagonistas de um filme francês de 1931 torna-o um objeto insólito, e este aspeto é reforçado pela trama narrativa, que chega ao seu ponto culminante num baile de máscaras. Um filme extraordinário a descobrir. Sessões: Sexta-feira, 7 de fevereiro, 19h00 // Segunda-feira, 17 de dezembro, 18h30

Gueule D’Amour (Passou uma Mulher, 1937) – Este foi o grande êxito de bilheteira que pôs o cineasta numa posição de destaque na indústria francesa. O filme é feito à volta de Jean Gabin, então a maior vedeta francesa, que aqui é um garboso soldado seduzido por uma mulher que ele ignora ser uma prostituta de luxo. O ator tem uma presença extraordinariamente intensa neste filme, que valoriza ao máximo a sua imagem de símbolo sexual proletário e de homem fundamentalmente bom, que é levado, por paixão, a transformar‑se num criminoso. Sessões: Segunda-feira, 17 de fevereiro, 21h30 // Sexta-feira, 21 de fevereiro, 15h30

Remorques (Reboques, 1939) – Último filme de Grémillon antes da Segunda Guerra Mundial e da ocupação da França pela Alemanha, acontecimentos que interromperam e adiaram a realização. Em Remorques, Grémillon afasta‑se do realismo, pois Gabin, capitão de um barco que socorre náufragos, tem uma relação amorosa com uma mulher misteriosa, vinda do mar, enquanto a sua mulher definha no leito de morte. O desenlace, com uma tempestade no mar e cantos religiosos na banda sonora, aproxima‑se do cinema fantástico, da pura poesia. Sessões: Quarta-feira, 19 de fevereiro, 21h30 // Quarta-feira, 26 de fevereiro, 15h30

Lumière D’Étè (1942) – Esta narrativa opõe dois mundos totalmente diferentes: o de um castelão decadente e da sua amante, e o mundo moderno voltado para o trabalho dos operários e engenheiros que constroem uma barragem na região. A estes acrescenta‑se a figura de um pintor alcoólatra, que desencadeia paixões. Como em tantos filmes de Grémillon, a ação chega ao seu paroxismo num grande baile de máscaras, talvez o mais belo de toda a sua obra. Sessões: Quinta-feira, 20 de fevereiro, 21h30 // Quinta-feira, 27 de dezembro, 15h30

Le Ciel Est à Vous (1943) – Último filme realizado por Grémillon durante a Segunda Guerra Mundial, Le Ciel Est à Vous é um dos mais amados pelos admiradores do cineasta. Trata‑se da história de uma mãe de família, que, depois de voar de avião pela primeira vez, decide, com o apoio do marido, bater um recorde aéreo. À época, o filme foi visto como um apelo à resistência e à luta unida, sendo, de certa forma, uma obra que contém a essência do cinema de Grémillon, que declarou a propósito dela: “A aviação é apenas um pretexto. Trata‑se da transformação de um meio humano numa realidade superior”. Sessões: Sexta-feira, 21 de fevereiro, 21h30 // Sexta-feira, 28 de dezembro, 15h30

Lana Turner, de Hollywood

Lana Turner foi atriz de cinema e televisão no curso de uma carreira de 50 anos entre finais dos anos 1930 e os 70, em que também fez rádio e teatro. Durante esse percurso tornou-se uma das grandes estrelas de Hollywood, sobrevivendo ao escrutínio da imagem pública alimentada pelo dramatismo privado que os tabloides expunham. Os filmes desta secção foram programados para evocar o seu percurso hollywoodiano, no ano que marca o centenário do seu nascimento. Destacam-se:

The Postman Always Rings Twice (O Destino Bate à Porta, 1946) – É a primeira versão americana do clássico thriller de James Cain, um livro cheio de carga sensual e amoral. John Garfield e Lana Turner formam o par de amantes “malditos” neste film noir com uma atmosfera escaldante. Um momento de antologia: a entrada em cena de Turner, arquétipo da mulher fatal e indissociável da imagem da sua “lenda” e do imaginário do cinema americano dos anos 1940. Sessões: Sábado, 1 de fevereiro, 21h30 // Quarta-feira, 12 de fevereiro, 19h00

Imitation of Life (Imitação da Vida, 1959) – O melodrama absoluto de Douglas Sirk e também o seu último filme em Hollywood, esta é uma obra de espelhos: duas mulheres, uma branca e uma negra, uma que enriquece, a outra que continua pobre, e as suas duas filhas (a filha da negra passa por branca). À exceção da mulher negra, todos imitam a vida e perseguem uma falsa felicidade. Um título obrigatório da filmografia de Lana Turner, num dos seus mais espantosos trabalhos. Sessões: Segunda-feira, 3 de fevereiro, 15h30 // Quarta-feira, 12 de fevereiro, 19h00

The Bad and the Beautiful (Cativos do Mal, 1952) – Um dos mais surpreendentes retratos que Hollywood fez de si própria. Esta obra de Vincente Minnelli abre um novo género, o dos filmes de crítica interna ao sistema, aproveitando a perda de poder dos estúdios. O argumento de Charles Schnee, que ganhou um dos cinco Oscars do filme, retrata um realizador, uma atriz e um argumentista a evocar as suas vidas com um tirânico produtor de cinema. Lana Turner protagoniza cenas fabulosas, como aquela em que é atirada para uma piscina ou a tragédia da sua fuga noturna. Sessões: Quarta-feira, 5 de fevereiro, 15h30 // Sexta-feira, 14 de fevereiro, 21h30

Peyton Place (Amar não é Pecado, 1957) – Típico produto de Hollywood de meados dos anos 1950, em cinemascope e a cores, com uma complicada história feita para uma star, neste caso Lana Turner, no papel de uma mulher “com um passado”, que educa a filha sozinha. Narrado em flashback, o argumento é semelhante ao dos melodramas realizados na época por Minnelli ou Sirk: uma jovem rememora a sua adolescência numa pequena cidade da Nova Inglaterra, no início da década de 40. Por detrás da fachada de religiosidade e moralismo, há abusos sexuais, intrigas e hipocrisia. Sessão: Segunda-feira, 10 de fevereiro, 15h30 // Sábado, 15 de fevereiro, 21h30

Dr. Jekyll & Mr. Hyde (O Médico e o Monstro, 1941) – É possivelmente a mais famosa das versões cinematográficas do romance de Robert Louis Stevenson. Realizado por Victor Fleming, o filme teve um impacto considerável graças aos notáveis efeitos especiais e às interpretações de Spencer Tracy e Ingrid Bergman. Esta última trocou, à última hora, o seu papel com o de Lana Turner, a quem deixou a personagem “boazinha”. Perdendo o protagonismo para Bergman, Lana Turner entrega‑se a um dos seus papéis de ingénua que marcaram os seus primeiros trabalhos. Sessões: Quinta-feira, 13 de fevereiro, 18h30 // Quinta-feira, 20 de fevereiro, 15h30

Johnny Eager (Vidas Queimadas, 1942) – O enredo conta a história da enteada de um advogado do Minis­tério Público, estudante de sociologia, que se apaixona por um gangster criminalmente acusado. Para promover este film noir, os estúdios da MGM anunciaram a obra como o novo “TNT (Turner ‘n Taylor)”: “They are dynamite in Johnny Eager.” Sessões: Sexta-feira, 14 de fevereiro, 18h30 // Segunda-feira, 24 de fevereiro, 19h00

Double Bill

Os cinco sábados de fevereiro contarão, sem exceção, com sessões duplas invejáveis, mas duas delas são particularmente imperdíveis:

The Band Wagon (A Roda da Fortuna, 1953) & Tôkiô Nagaremono (O Vagabundo de Tóquio, 1966) – O mundo é um palco e o palco é um mundo de puro entretenimento, tanto em Vincente Minnelli, no seu mais genial musical produzido para a MGM, como em Seijun Suzuki, num dos seus mais exube­rantes filmes de ação. O americano e o japonês “dançam” ao mesmo ritmo e são ambos intoxicados por cores que rebentam por todos os lados. No primeiro caso, Fred Astaire representa a figura de um bailarino em decadência, contratado para um espetáculo moderno, que acaba por se transformar num fabuloso musical, culminando num bailado‑homenagem ao filme de gangsters. No segundo, o herói é um hitman em busca de remissão, entalado entre o passado manchado de sangue e um futuro desejavelmente imune às rivalidades entre gangues. Contudo, o seu renascimento não se fará sem que tenha palco mais um derramamento de sangue, num stand‑off delirante, digno deste louco filme de mukokuseki akushon (“ação sem fronteiras”, em japonês). Sessão: Sábado, 22 de fevereiro, 15h30

Samma No Aji (O Gosto do Saké, 1962) & Husbands (Maridos, 1970) – Nestas duas obras, bebe‑se para esquecer – e para lembrar – sempre no sentido de contrariar a dura receita do destino. A primeira é o último filme de Yasujiro Ozu e é uma nova variação sobre uma história de separação familiar em reflexão nostálgica sobre o começo do “inverno da vida”. É também a sua celebração e a despedida ao “gosto do saké”, onde cabe toda a memória do passado e dos “bons tempos”. Profundamente comovente, é um dos mais perfeitos filmes de Ozu, onde a depuração do seu estilo atinge níveis supremos. Já no filme de John Cassavetes, três amigos, casados e com filhos, reencontram‑se por ocasião da morte súbita de um antigo companheiro. O reencontro e o choque levam‑nos a repetir uma das noites de farra dos seus tempos de juventude. São três interpretações notáveis (Cassavetes, Gazzara e Falk) num filme noturno e nova‑iorquino, melancólico e nervoso. Sessão: Sábado, 29 de fevereiro, 15h30

Outras Secções

Zui Hao De Shi Guang (Três Tempos, 2005) – A escolha dos espetadores deste mês para a secção “O Que Quero Ver” vai para Hou Hsiao‑Hsien, o grande realizador taiwanês que aqui filma três histórias de amor em três períodos diferentes – 1966, 1911 e 2005 – com apenas dois atores. O filme reflete sobre a comunicação ou falta dela entre homem e mulher, cuja relação, na história do meio, é surpreendentemente encenada como se fosse um filme mudo. Sessão: Segunda-feira, 3 de fevereiro, 19h00

Pierrot Le Fou (Pedro, o Louco, 1965) – Se em maio passado, numa iniciativa conjunta com o festival IndieLisboa, a Cinemateca dedicou uma retrospetiva a Anna Karina para celebrar o seu importante percurso na sétima arte, desta feita a homenagem deve-se ao seu triste falecimento em dezembro. O dia 4 de fevereiro é-lhe então dedicado, começando com este emblema do cinema moderno que é uma das obras-primas de Godard. Sessão: Terça-feira, 4 de fevereiro, 15h30

La Religieuse (A Religiosa, 1966) – A segunda longa‑metragem de Jacques Rivette adapta o romance homónimo de Diderot sobre uma jovem que é posta num convento à sua revelia. Rigoroso e rarefeito, extremamente “escrito”, La Religieuse conta com um desempenho excecional de Anna Karina no papel principal. Sessão: Terça-feira, 4 de fevereiro, 21h30

High School (1968) – A propósito do lançamento do livro “Esculpindo o Espaço – O Cinema de Frederick Wiseman“, de Pedro Florêncio, exibe-se High School, uma das obras discutida no livro. Filmado ao longo de cinco semanas em 1968, o filme retrata o quotidiano de um grupo de estudantes no Northeast High School de Filadélfia, Pensilvânia, documentando o papel do sistema escolar na transmissão valores sociais de geração em geração. Wiseman apresenta uma série de encontros entre professores, estudantes, encarregados de educação e administradores do liceu em causa. Sessão: Terça-feira, 4 de fevereiro, 18h30

Belarmino (1964) – É um dos filmes chave do Cinema Novo Português, produzido por António da Cunha Telles com uma pequena equipa de jovens iniciados e baixo orçamento. Belarmino capta uma Lisboa noturna e marginal como até então ninguém a tinha filmado, ao som da banda sonora de Manuel Jorge Veloso. Utilizando métodos semelhantes aos do cinema direto, Fernando Lopes segue Belarmino Fragoso, um pugilista, e através dele mostra os sinais de uma cidade (e de um país) à beira do sufoco. Sessão: Quinta-feira, 5 de fevereiro, 19h00

The Women (Mulheres, 1939) – Por ter trabalhado com quase todas as grandes vedetas femininas de Hollywood, George Cukor foi cognominado o «cineasta das mulheres». E nenhum filme ilustra melhor esta definição do que The Women, cujo elenco é exclusivamente formado por mulheres. Todas elas, exceto uma, são muito ricas e muito preocupadas com homens, sejam eles os seus maridos, ex‑maridos ou os maridos alheios. Filmada a preto e branco, mas com uma sequência a cores de um desfile de moda, esta é uma das grandes comédias sofisticadas de Hollywood. Sessão: Sábado, 29 de fevereiro, 21h30

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