2020 promete ser um ano “quente” no que toca a comédias francesas e a primeira amostra de exibições no Festival de Alpe d’Huez e no Rendez-vous du cinema français em Paris deixou antever algumas dessas obras.
Assim, aqui fica uma listagem das obras que deverão dar que falar este ano:
La Daronne

Não é uma daquelas comédias de rir às portas escancaradas, mas é na sua subtileza e tom ligeiro com toques dramáticos que La Daronne se destaca. O filme segue a trágica derrocada profissional de Patience Portefeux, uma viúva e mãe de duas filhas, com 53 anos, que tem ainda nas suas despesas o cuidar da mãe. Tradutora de franco-árabe na brigada de narcotráfico, onde é responsável pelas escutas telefónicas e mal paga, Patience decide infiltrar-se nas maquinações de um grande negócio de drogas, embarcando numa carreira totalmente nova: a de “Madrinha” do crime organizado.
Isabelle Huppert a fazer de polícia e traficante nos meandros do crime organizado? Sim, é isso mesmo que assistimos nesta obra, onde a atriz volta a testar os limites da atuação, entrando por caminhos pouco habituais: canta rap; joga e esmaga adversários nos videojogos; e trafica droga com todo o charme e dureza do mundo. Um filme que marca o regresso de Jean-Paul Salomé, o eterno realizador de Arsène Lupin – que andava desaparecido da realização desde 2012. “Li o livro e fiquei interessado na adaptação, pois era uma história pertinente e insolente“, explicou ao C7nema o cineasta, acrescentando que logo de seguida Huppert também acedeu à obra e manifestou o seu interesse em participar nela. “Os astros alinharam-se para esta colaboração“, concluiu.
Divorce Club

O grande vencedor do Festival de Alpes d’Huez chega pelas mãos do ator e realizador Michaël Youn, que em 2013 viu a sua segunda realização, Viva a França, chegar às nossas salas.
Após 5 anos de casamento, Ben (Arnaud Ducret) ainda está loucamente apaixonado, mas um dia descobre em público que a sua esposa o anda a trair. Procurando recuperar da humilhação, Ben luta por uma nova vida a sós, mas encontra Patrick (François-Xavier Demaison), um antigo conhecido, também divorciado, que se oferece para morar com ele. Os dois logo se juntam a outras pessoas divorciadas, separadas e solteiras que procuram um refúgio. Festas após festas, o local torna-se uma espécie de clube VIP, mas rapidamente as coisas começam a complicar-se.
Comédia “pipoca” com grande apetência para as massas, este Clube dos Divorciados.
Miss

Talvez seja um dos mais esperados, pois afinal das contas vem assinado por Ruben Alves, responsável pelo grande sucesso que foi A Gaiola Dourada.
Com o nome Miss, esta segunda longa-metragem do ator e realizador conta a história de Alex, “um menino de 9 anos que navega entre géneros e sonha em ser um dia Miss França”. Quinze anos depois, preso numa vida monótona, Alex decide competir no concurso de beleza, escondendo que é um homem. “Beleza, excelência, camaradagem … À mercê das etapas de uma competição impiedosa, ajudado pela família, Alex conquistará o título, a sua feminilidade e, acima de tudo, a si mesmo …” diz a sinopse do filme.
O papel principal desta obra é desempenhado por Alexandre Wetter, modelo e ator andrógino que trabalha com Jean-Paul Gaultier e surgiu nas séries The Marvelous Mrs. Maisel e Guépardes.
Mine de Rien

Mais uma obra que passou por Alpes d’Huez, desta vez assinada por Mathias Mlekuz, ator que se estreia aqui com esta comédia. Nela estamos numa região que já liderou a indústria da mineração, mas que agora encontra-se nas ruas da amargura. É aí que dois desempregados de longa data (Arnaud Ducret e Philippe Rebbot) têm a ideia de construir um parque de diversões “artesanal” numa antiga mina de carvão abandonada. As peripécias vão ser muitas, mas a dupla vai recuperar a força e a dignidade.
Forte

“É uma comédia fortemente orientada para a minha geração“, afirmou-nos a atriz e argumentista Melha Bedia sobre esta comédia de afirmação pessoal sobre uma jovem que é vista pelos colegas como uma comparsa, sem qualquer olhar sexual. Trabalhando num ginásio e sob o olhar da sua mãe, a rapariga decide mudar a forma como todos olham para ela, começando o percurso aprendendo pool dance.
Le Lion

Duas das figuras primordiais do cinema gaulês, Dany Boon e Philippe Katerine, entregam nesta comédia de Ludovic Colbeau-Justin performances memoráveis. No filme seguimos um médico num hospital psiquiátrico, Romain (Katerine), que para encontrar a sua namorada desaparecida não tem outro remédio a não ser deixar escapar um dos seus pacientes, Léo Milan (Boon), que afirma ser um agente secreto. Que comece o caos nessa demanda…
“Somos dois provincianos que se encontraram“, assim explica Dany Boon a química entre ele e seu parceiro de filmagens Philippe Katerine.
Notre Dame

É de 2019, mas promete aquecer os corações nacionais em 2020, no circuito de autor. Depois do intenso Margueritte e Julien, a cineasta precisou de algo mais ligeiro, assinando e protagonizando a história de uma arquiteta com dois filhos que ganha um concurso de criação de uma esplanada que funde religião e turismo na catedral de Notre Dame. “Profética”, assim definiu a cineasta e atriz ao C7nema a sua obra que teve estreia no Festival de Locarno. Um trabalho onde não falta muita fantasia e elementos muitas vezes surreais.
#JeSuisLa

O regresso do realizador de A Família Belier era aguardado, embora ele nos tenha confidenciado em entrevista que a pressão que sentiu após o sucesso do seu filme anterior foi quase nula.
Nesta comédia romântica no universo das redes sociais, seguimos um Chef basco que conhece e apaixona-se por uma sul-coreana. De um dia para o outro decide arriscar e voa para a Coreia na esperança de conhecer a jovem. Assim que ele chega ao aeroporto de Seul, um mundo totalmente novo se abre para ele, num trabalho que mistura romance e comédia de costumes. Alain Chabat protagoniza esta obra que conta ainda no elenco com Doona Bae (Sense8), Blanche Gardin (Selfie) e Marc Fitoussi.
Le Meilleur reste a Venir

Comédia dramática assinada por Matthieu Delaporte e Alexandre De La Patellière com dois pesos pesados do cinema gaulês: Fabrice Luchini e Patrick Bruel. O duo interpreta velhos amigos que são apanhados em enormes mal entendidos após um deles ser diagnosticado com um cancro terminal.
O regresso de Matthieu Delaporte, Alexandre De La Patellière num trabalho inspirado, não só no problema real que um deles sofreu há uns anos, mas na prematura morte da atriz Valérie Benguigui, protagonista do filme Le Prenom (O Nome da Discórdia), que a dupla também assinou.
Le Prince Oublié

Filme de aventura, fantasia e comédia, o novo filme de Michel Hazanavicius (O Artista) é uma viagem à relação de um pai e de uma filha prestes a entrar na adolescência, e – com isso – deixar um pouco a “asa” paterna. Viajando entre a realidade e as história que começa com um “Era uma vez”, Hazanavicius entrega um trabalho cheio de sentimento e extremamente rico na sua direção artística e variação entre dois mundos. “Talvez seja um filme demasiado otimista para o mundo que vivemos“, disse-nos o realizador em entrevista sobre esta incursão diferente na sua cinematografia.

