Mark Cousins: “o debate feminista nos EUA está repleto de raiva”

(Fotos: Divulgação)

O grande historiador e documentarista exibia uma t-shirt temática, quando o encontramos no hall do hotel que sedia as entrevista do Festival de Sevilha.

Mark Cousins ostenta Cléo de 5 à 7 na camisola, um “statement” que tanto serve para referir um dos clássicos femininos da história do cinema, como uma associação rápida ao tema da sua presença na cidade andaluza.

Esbanjando simpatia, desculpando-se por “não falar português”, e mencionando ser grande fã de António Reis (“um fantástico cineasta“), Cousins falou ao C7nema sobre o tema adjacente ao que o trouxe ao festival:  a monumental série Women Make Films – A New Road Movie Through Cinema, projeto que levou quatro anos a executar. Nas 14 horas de material, que em Sevilha surgiram divididas em cinco partes, segue uma linha semelhante ao seu monumental The Story of Film: An Odyssey, onde utilizava excertos de filme para construir de forma crítica a história do cinema.

Aproveitamos esta ocasião para perguntar a Cousins sobre as recentes polémicas envolvendo o mundo do cinema – será que ele é um otimista, um apocalíptico ou nada disto em relação ao futuro da sétima arte? Duas das controvérsias envolvem o lendário Martin Scorsese: as críticas aos filmes da Marvel (“concordo com quase tudo“, diz) e a estreia do seu novo filme, The Irishman, quase exclusivamente em streaming.

A expulsão das mulheres do mercado e Leni Riefensthal

Comecei por comentar a Cousins que, há tempos, fiz uma entrevista ligada à fotografia, descobrindo que a contribuição da mulher tinha sido mais relevante para a história deste meio. Porque não aconteceu isso no cinema? Segundo Cousins, a resposta é simples: “a fotografia não é uma indústria capitalista de grandes dimensões. Quando os homens de negócios de Wall Street começaram a compreender que o cinema era um grande negócio, trataram de expulsar as mulheres da indústria“.

Levou muitos anos para que, com aparições pontuais de cineastas mais ou menos esquecidas, como Dorothy Arzner, as mulheres passassem para trás das câmaras. A exceção notória foi, ironicamente, Leni Riefensthal, que conseguiu singrar numa indústria masculina num palco pleno de abuso de poder, perseguições culturais e veia livre para engendrar algo inacreditável como o Holocausto. Por outras palavras, se o cinema americano sempre veiculou propaganda, Riefensthal trabalhava para os nazis e há anos coloca problemas morais aos críticos e historiadores.

Sim, isso coloca algumas questões complicadas“, reconhece. “Ela era um ser humano complexo, egoísta e narcisista. Mesmo depois das revelações de que o nazismo tinha sido uma das piores coisas da história humana, ela continuou a ser o que era. As suas fotos em África, por exemplo, seguem o mesmo padrão dos seus filmes. Mas o seu cinema era poderoso e primitivo“.

Um debate polarizado e com muita raiva

Nos anos 60, o feminismo e as lutas pela igualdade travadas desde o pós-guerra, finalmente explodiram e liberdades mais amplas surgiram, contribuindo para o início da derrocada definitiva da sociedade patriarcal. Mas isso tampouco significou que as mulheres começassem a fazer filmes.

Na verdade temos que salientar uma grande diferença entre o Ocidente e, por exemplo, o Leste europeu. Em países como a Alemanha Oriental ou a União Soviética, havia uma importante participação feminina na indústria. Mesmo em França e Inglaterra existiram progressos – nos Estados Unidos é que perseverou o conservadorismo“.

Isso resultou na intensidade do debate na América hoje em dia? “Certamente, isso explica a grande polarização que existe hoje nos Estados Unidos. Há muita raiva envolvida no debate que tem esse fundo histórico – no sentido de que o país tem uma indústria de entretenimento gigantesco e as mulheres não faziam parte dele. Por isso é uma discussão tão preto-no-branco, até porque os americanos nunca veem o que se passa em outros lados“.

A questão do streaming

Mudando de assunto, vem à tona a questão do streaming, que tem “recheado” de polémica os festivais como Cannes e cujo último episódio veio a ser o facto de The Irishman, o último filme de Martin Scorsese, ter um lançamento nas salas de cinema bastante reduzido.

Temos que ter uma perspetiva mais alargada“, diz, acrescentando: “O Scorsese disse que queria que o filme passasse no maior numero possível de salas de cinema, mas a Netflix está a usar isso como grande imã para atrair as pessoas. O que importa é que o filme usa linguagem cinematográfica e não televisiva. Além disso, ele vai continuar a existir daqui a 20 ou 30 anos e a Netflix não controlará o mercado“.

A Marvel e o bullying do mercado

Scorsese também tem feito, como se sabe, duras críticas ao totalitarismo que tomou conta do mercado cinematográfico, com um empresa responsável por um marketing massivo, controlam a distribuição e produzem uma panóplia de remakes que usam fórmulas atestadas sem arriscar nada. O que Mark Cousins acha de tudo isto?

Concordo com a maior parte das coisas que ele disse, especialmente no que se refere à distribuição. Cada vez que um filme da Marvel é lançado, bloqueia tudo o resto em todo o lado. É uma espécie de bullying. Por isso, sou muito crítico em relação a Disney e às recentes revelações de que eles estão a tentar bloquear as produções da Fox. Isso é muito, muito mau. Apenas discordo quando ele diz que a Marvel não têm personagens com profundidade, pois alguns dos melhores filmes já feitos também não têm. O Veludo Azul ou Inland Empire, do David Lynch, por exemplo. Ou o 2001 e os grandes musicais. Mas em todas as outras partes do artigo concordo com ele“.

O cenário do apocalipse

A visão do universo cinematográfico, no que se refere às salas de cinema, tem despertado algumas visões apocalípticas – em sintonia com tantos outros aspetos da sociedade contemporânea. Para além dos temas tratados na entrevista, como o streaming e a asfixia do mercado, a pirataria é outro fator nada negligenciável.

Sobre tudo isto, Mark Cousins é otimista, apocalíptico ou nenhuma das opções anteriores? “Sou moderadamente otimista, pois acredito que a só as salas de cinema poderão oferecer certos tipos de emoções e espetáculos coletivos que façam com que as pessoas não queiram apenas a estar em casa a encomendar uma pizza e a ver filmes na televisão. “

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