Enquanto o Festival de Sevilha faz um apanhado do cinema europeu de 2019, Elia Suleiman apresentou o premiado It Must Be Heaven.

O realizador apareceu para a conferência de imprensa ao ar livre e brincou: “Vocês não têm mais nada que fazer numa manhã como esta? E, por favor, nada de perguntas complexas, é muito cedo!“. O seu pedido não seria atendido…
O filme é dividido em quatro partes, três delas passadas em diferentes países. O protagonista é o próprio Suleiman, um sorumbático observador que nunca fala e vai observando, aqui e ali, fragmentos levemente anedóticos da “comédia humana” (há uma referência explícita à obra de Balzac no trecho passado em Paris).
“Dance music” na Palestina

Na Palestina, Suleiman convive com os seus idiossincráticos vizinhos, especialmente um que passa a vida a invadir o seu quintal e mais algumas historietas onde aparecem alguns temas, como a instituição policial, que se vai revelar bem mais anedótica e negligente do que aquela que se encontrará em Paris. Então, ele parte para o exílio, assunto que já abordou outras vezes.
“Nunca vivi em exílio“, diz. “Eu escolhi-o, é um privilégio. Às vezes a palavra pode ter uma conotação negativa, mas no meu caso é positiva. Ter vivido em tantos lugares contribui para a minha libertação, comecei uma espécie de ‘despalestinização’ e a identificar-me com outras culturas. “.
Talvez algo de forma contraditória, o filme termina com uma imagem alegre, bonita e intensa no seu significado simbólico (uma dança numa discoteca) – isso antes dos créditos com uma dedicatória à Palestina. “A última cena representa uma ligação emocional. Encontrei casualmente aquelas pessoas, que não sabia que existiam e fiquei muito feliz com isso. Procurava uma imagem de esperança e elas representavam isso“.
“Num mundo globalizado todos vivemos em territórios ocupados”

O episódio parisiense é dos mais belos. Aqui Suleiman filma no que poderia ser um domingo de manhã uma Paris ensolarada, vazia e silenciosa. Mas enquanto admira as belezas da cidade, o silêncio é constantemente interrompido por signos de agressividade e repressão: aviões de guerra, sirenes, muitos polícias para as causas mais insignificantes (que vão protagonizar curiosas coreografias), e desfiles militares.
Se no início da conferência Suleiman havia dito que “num mundo globalizado todos vivemos em territórios ocupados“, é precisamente aqui que isso tudo fica muito claro: em Paris já parece ter começado uma guerra qualquer.
O desfile militar rende um pitoresco momento onde os animais da marcha vão deixando dejetos para trás, imediatamente limpos por uma máquina a seguir no fim da fila. O aspeto da limpeza chama atenção, tanto quanto outro momento delicioso que reflete que o que a Europa ainda tem de mais belo é a forma como as estruturas do Estado tratam dos seus “miseráveis” – refletindo um ritual atendimento dos serviços sociais a um sem-abrigo.
O anjo da palestina e Gael Garcia Bernal

Já em Nova Iorque, o cineasta liberta-se do registo realista e parte para uma preciosa veia fantasiosa. Mas antes, as armas: estas estão por todo o lado. Mais do que em França, o militarismo grassa no seio da própria sociedade, onde os cidadãos comuns andam com espingardas às costas a fazer as coisas mais corriqueiras, como ir ao supermercado ou a tirar uma criança do carro (ela também está armada, claro…).
A sequência que talvez melhor encerre todo o significado simbólico e emocional do filme é a perseguição a uma rapariga com asas de “anjo” num parque, onde ela causa o caos ao envergar um figurino com as cores da bandeira da Palestina. A polícia é imediatamente chamada e o resto é coreografia.
E há um momento anedótico precioso: enquanto espera por uma suposta reunião com uma produtora norte-americana, ao seu lado está Gael Garcia Bernal a fazer dele próprio, numa hilária discussão a propósito de filmar a chegada de Colombo às Américas em inglês. Acaba de forma “trágica”: a produtora convida Gael para discutirem o projeto, despacha Suleiman com um “boa sorte com o projeto” e, diante do olhar perplexo do realizador, a assistente termina a “gag” com um: “quer um taxi”?
“Bresson é engraçado, Roy Andersson um génio“

Suleiman vai rejeitar comparações com Truffaut (“não sei se algum dia seus tiveram algum impacte em mim”) e, de relação direta com o seu protagonista, com Jacques Tati e Buster Keaton.
“Quando me comparam a eles fico na defensiva e digo que nunca vi“, afirma, para depois dizer algo ironicamente que “ninguém me pergunta sobre Bresson. Admito que ele é uma grande influência. Sei que muitas pessoas não vão concordar, mas acho-o bastante engraçado“.
O realizador prefere, na verdade, falar em influência do cinema oriental, citando explicitamente Hou Hsiao-Hsien e da literatura. Quanto a Roy Andersson, que também foi chamado à conversa, ele não se importa: “Eu absolutamente adoro-o, acho um dos grandes génios do cinema atual“.

