A linguagem do assobio: um código para um mundo assombrado pela ultravigilância

(Fotos: Divulgação)

Na sua passagem por Sevilha, o realizador Corneliu Porumbuiu (na foto com um dos atores do filme, o cineasta Agustí Villaronga), falou sobre o seu último trabalho, que em Portugal terá estreia comercial e ganhou o engenhoso título de A Ilha dos Silvos.

A “linguagem do assobio” efetivamente existe e, conforme disse Corneliu Porumbuiu na conferência de imprensa após a projeção do filme, foi o ponto de partida para o projeto quando viu algo sobre isso na televisão há uns anos. Tal facto explica a conexão Roménia-Canárias, onde se passa parte da ação.

É lá que vai parar um polícia corrupto, Cristi (vivido por Vlad Ivanov, que revive um personagem de Politist, Adjectiv, obra do realizador de 2009), um homem dotado de uma certa melancolia existencial que sofre de falta de finalidade para a vida. Antecedendo um momento anedótico, ele vai ouvir da mãe (Julieta Szönyi) a seguinte pergunta: “como é que chegaste a este ponto, filho?” – antes ser obrigado a ir à igreja “curar-se” porque ela desconfia que ele é homossexual!

A sua mãe não sabe, mas ele vai para as ilhas espanholas em função dos encantos de uma “femme fatale” (Catrinel Marlon). Essa, uma prostituta de luxo que usa o nome de Gilda, uma óbvia referência ao clássico com Rita Hayworth, introduz o espectador no campo dos filmes noir – na primeira das homenagens por aqui rendidas.

Mas a teia onde está intrincado o polícia é complexa e os nomes dos protagonistas vão sendo apresentados sobre um fundo colorido à maneira de uma certa “escola” de “gangsters” anglo-saxões: há Zsolt (Sabin Tambrea), o namorado com quem ela tencionava fugir; Magda (Rodica Lazar), a terrivelmente esperta chefe da polícia; a “mamã”, desempanhando um insólito, mas crucial na papel na vida do filho Christi e do enredo; e o líder da máfia Paco, vivido pelo cineasta espanhol Agustí Villaronga.

Porumbuiu interliga os restos do aparato da vigilância da ditadura comunista com o mundo atual de telemóveis, computadores e as mais diversas possibilidades tecnológicas para um universo ultravigiado. A linguagem do assobio ganha, assim, outros contornos: mais do que servir ao enredo simboliza uma forma de resistência primitiva ao ultratecnológico. “As personagens sabem que estão a ser vigiadas e fazem cinema durante todo o tempo, criando identidades falsas que lhes permite sobreviver num ambiente hostil“, observa Porombuiu.

A Ilha dos Silvos também reflete um mundo assombrado pelo fetiche do passado fílmico. Para além do “noir”, o “western” é várias vezes referido, culminando em dois “statements” ao serviço das mulheres muito comum nestes tempos. Num deles, uma personagem feminina reverte a equação da famosa cena do chuveiro de Psico; noutro, duas mulheres encontram-se numa espécie de “duelo” à moda do Velho Oeste. Obviamente, esse ensaio sobre “vouyeurismo”, vigilância e cinema tem um dos seus pontos altos num estúdio abandonado.

Já Villaronga, cineasta de longa carreira, classificou como muito agradável a sua passagem pelo set de rodagem e disse que a única surpresa foi que tivesse sido chamado a atuar. “Perguntei-lhe porque me convidou, mas ele nunca respondeu!“, brincou.

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