Gloria Mundi, premiado em Veneza (Melhor Atriz para Ariane Ascaride), foi exibido na Seleção Oficial em Sevilha. Serve para dizer que em França, ao contrário das aparências, ainda existe proletariado – composto de franceses e a viver no limiar da França.

Anaïs Demoustier e Robinson Stévenin em Gloria Mundi
Exibindo um humanismo que sobrevoa a obra com um tom quase antiquado, que remete a trabalhos dos Dardenne ou dos Taviani, Robert Guédiguian usa um tom empático para mostrar a sofrida vida da classe média baixa, roçando fortemente a pobreza. Este é o retrato que o cineasta, na sua 21.ª longa-metragem, apresenta da França contemporânea.
Para esse registo entre o realismo social e o melodrama, com momentos a tocar perigosamente na telenovela e nas suas personagens esquemáticas, o cineasta mostra uma sucessão de desgraças a interligar os destinos dos membros de uma família. Essencialmente, a ideia por trás do projeto é simples, mas lembra coisas que nunca convém esquecer: o capitalismo selvagem tornou as pessoas individualistas e egoístas, e os laços comunitários e mesmo a solidariedade familiar revelam-se difíceis de serem resgatados.
O filme começa com um nascimento transformado em algo épico: o bebé sai de dentro da mãe ao som de música clássica e imagens estilizadas. Previsivelmente, o nascimento de Gloria será o único acontecimento bom durante o filme.
A mãe da recém-nascida (Anaïs Demoustier) é insegura, infiel e trabalha numa loja a retalho onde é muito mal tratada pela patroa; o pai (Robinson Stévenin) protagoniza um dos momentos cruciais da ideia de Guédiguian sobre o rompimento dos laços de solidariedade e espírito da comunidade: enquanto tenta singrar como um “self made man” conduzindo para a Uber, é brutalmente agredido por taxistas. Depois existe a mãe dela (Ariane Ascaride), que trabalha dia e noite nas limpezas e vocifera contra a greve por melhores salários, enquanto o padrasto bondoso (Jean-Pierre Darroussin) é motorista de autocarro que acaba suspenso por ser apanhado pelar polícia a falar ao telemóvel. Já o pai biológico, interprétado por Gérard Meylan, sai da prisão depois de 20 anos e agora vai viver dos rendimentos sociais enquanto escreve poesia e tentar resgatar os laços afetivos.

Anaïs Demoustier e Ariane Ascaride em Gloria Mundi
Se a sociedade é feia, a Marselha que se vê no filme também o é: sempre congestionada, suja, convulsa, onde tudo remete para uma caótica desumanidade. Incrustados na sua paisagem estão os mais empreendedores e únicos a conseguir singrar nesta selva de pobreza, justamente aqueles que recebem um olhar mais antipático de Guédiguian. Eles são o casal formado pela meia-irmã da mãe de Gloria (Lola Naymark) e o seu marido (Grégoire Leprince-Ringuet).
Juntos, quando não estão a cheirar cocaína ou a filmarem-se a ter sexo, eles gerem uma espécie de “cash converter”, com um atendimento de um nível inacreditável de rudeza por parte dela e que serve para o realizador mostrar a loja como um centro onde gravita um verdadeiro cortejo de desesperados. Neste quesito, há uma das poucas cenas realmente surpreendentes no filme, quando a maléfica rececionista obriga uma muçulmana a tirar a burca para que ela lhe compre uma tostadeira… por cinco euros!

