E se Godard se unisse a Buñuel para fazer um filme de vampiros?

(Fotos: Divulgação)

O resultado seria provavelmente parecido com Vampir Cuadecuc (Cuadecuc, vampir), um alucinante “making of” rodado por Pere Portabella durante as filmagens de Drácula – O Príncipe das Trevas, clássico do terror espanhol realizado por Jesús Franco em 1970.

Pere Portabella é um dos homenageados do Festival de Sevilha pela sua contribuição como produtor e realizador de uma cinematografia que caracterizou-se pelo experimentalismo e, nos seus primórdios, pela oposição à ditadura franquista. No ciclo que o representa, por exemplo, surgem trabalhos de Carlos Saura (Los Golfos, 1960), Marco Ferreri (El Cochecito, 1960) e, justamente, Luís Buñuel (Viridiana, 1961).

Na apresentação da sessão, é Jean-Luc Godard, justamente, quem vem à baila com a sua famosa frase emitida na altura do Grupo Dziga Vertov, onde dizia que “não se trata de fazer filmes políticos, mas de filmar politicamente“. E se a receita é “filmar politicamente” uma história de vampiros, Portabella esboçou uma receita em Vampir-Cuadecuc, tão descomprometida com a suposta ideia de um “making of” quanto com qualquer regra formal.

Para isso usou os “jump-cuts” à Godard, mas também arranjou uma requintada fotografia a preto-e-branco que remete obviamente a Nosferatu de Murnau, apropriando-se de uma panóplia de efeitos visuais disponíveis (sobreposição, distorção, saturação da luz) para criar momentos sensoriais.

A metalinguística e a desconstrução dos artifícios são frequentes: veem-se câmaras e os seus operadores, os atores tiram os “olhos” falsos usados para alguém parecer morto, esguichos de sangue surgem e a quarta parede é muitas vezes rompida.

Há mais: as personagens conversam, mas não são ouvidas – como se fosse um filme mudo, sem as pantominas teatrais dos anos 20. Uma vez que o surrealismo grassa, é inútil procurar “uma história” (houve uns incautos, provavelmente à espera dela, que abandonaram a sessão bem antes do fim dos seus escassos 66 minutos): mas a conjugação de imagens e um desnorteante trabalho de som que ficou célebre (cortesia de Carles Santos) garantem a “diversão”.

Para o final, ficou ainda um precioso testemunho de Christopher Lee, aí sim, “documental” no sentido mais estrito do termo. O definitivo Conde Drácula “filosofa” sobre o facto de Bram Stoker gastar apenas “12 ou 15 linhas” para descrever a destruição do vampiro, lendo para a câmara o trecho da história onde isso ocorre. Na volta, foi por isso que vez de matá-lo com uma estaca, Jesús Franco resolveu… incendiá-lo!

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