Ymotion: Rodrigo Areias e o “fazer filmes como rock n’roll”

(Fotos: Divulgação)

O festival de cinema jovem Ymotion, em Famalicão, apresentou nesta sexta-feira uma nova edição da sua rubrica Novíssimos do Cinema Português

Ao jornalista e crítico de cinema Rui Tendinha juntou-se Rodrigo Areias (produtor e realizador) e Joana Ribeiro (atriz), uma das convidadas de honra do festival. Nesta edição, o enfoque foi a produtora Bando à Parte, gerida por Rodrigo Areias, que o próprio caracteriza de “fazer filmes como rockn’roll“.

Numa sala lotada no Centro de Estudos Camilianos, o produtor fez-se acompanhar por um quarteto de obras da autoria do seu “Bando”, demonstrando o “espírito punk na produção“. De “Guimarães para o Mundo”, o público jovem pôde testemunhar o confronto entre o digital e o analógico em Pixel Frio, realizado pelo próprio Areias. Um objeto performativo alicerçado aos prazeres da carne como forma de arte, deixando exposta Ana Ribeiro, que no meio deste duelo de forças criativas sai coroada.

Flutuar, a curta de Artur Serra Araújo (A Moral Conjugal, Suicídio Encomendado), com Alba Baptista e Maria Leite, é uma proeza técnica na forma como a câmara “parece acompanhar as ondas” que banham os corpos das duas atrizes em constante flirt. É um sonho molhado e temperado com sal marinho, que fez delirar o Centro de Estudos.

Penumbria, a história de um “não lugar”, inabitável, narrado por Ricardo Vaz Trindade, é um peça composta pelo fascínio do escritor, fotografo e curador Eduardo Brito às artes que interpelam as imagens em movimento. Para finalizar, uma das joias da coroa do Bando à Parte no campeonato de curtas: Água Mole de Laura Gonçalves e Alexandra Ramires, um cruzamento entre a animação e o documental, a desertificação rural nos cantos dos caretos. A obra integrou a Quinzena dos Realizadores em Cannes, na edição de 2017, e foi um dos motivos de deslumbramento por parte do público jovem presente no Centro.

Pixel Frio

Terminada a mostra, deu-se inicio à conversa, na qual Rodrigo Areias fala sobre as dificuldades de produzir filmes hoje em dia, frisando que os “financiamentos não subiram e os valores mantêm-se os mesmos, o custo de vida é que aumentou, o que significa menos dinheiro.” Contudo, o realizador que estreará ainda este mês a longa metragem Hálito Azul, afirmou poder contar sempre com os seus amigos para o auxiliar na conceção das produções do Bando à Parte.

Para Areias, a produtora é uma família. Sem “papas na língua” declara que “se sobrevivermos 10 anos sem comer, sobrevivemos o resto“, salientando a precariedade da “indústria” audiovisual em Portugal, ao mesmo tempo que os motiva: “nunca é preciso ir a Lisboa para fazer algo neste país“.

Confrontando por um jovem no público sobre o facto de produzir os seus próprios filmes e as dificuldades que isso pode suscitar, Rodrigo Areias satirizou: “Sou horrível comigo mesmo e despeço-me muitas vezes. [risos] É difícil trabalhar com realizadores como eu.“. Contudo, o realizador revelou que “até hoje, só despedi realizadores na vida, nunca técnicos.“, numa espécie de protesto contra a “hierarquia dentro do Cinema que muitos pensam funcionar como as pirâmides do Egito. O que faço é desmaterializar o processo hierárquico. Dito isto, sou um fascista do caraças!

Rodrigo Areias e Rui Tendinha

À conversa juntou-se depois Joana Ribeiro, atriz que tem variado a sua carreira em telenovelas, séries televisivas, filmes de vários formatos e até mesmo produções de Hollywood. Conhecida pelos seus trabalhos em A Uma Hora Incerta, de Carlos Saboga e mais recentemente Linhas Tortas, de Rita Nunes, Ribeiro encontra-se atualmente no vai-e-vêm nas rodagens de Infinite em Londres, o próximo filme de Antoine Fuqua, protagonizado por Mark Wahlberg e Chiwetel Ejiofor. Esta não é a primeira obra internacional que participa, já que surgia no ainda inédito no nosso país O Homem Que Matou Don Quixote, de Terry Gilliam. O filme que deveria ser a sua catapulta está envolvido em disputas judiciais.

Joana Ribeiro interagiu na conversa, respondendo às questões do público curioso, principalmente *as ligadas a castings, desde as selftapes (castings à distância) até às dificuldades de que um ator luso tem em chegar às produções internacionais. “Em Portugal, raramente há castings, nós atores raramente vivemos a realidade dos bastidores de seleções nas grandes produções de Los Angeles“.

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