Nesta rubrica do C7nema encontram-se as nossas recomendações mensais sobre a programação da Cinemateca Portuguesa.

O primeiro mês de outono da Cinemateca promete uma série de retrospetivas, colaborações com festivais, celebrações do cinema mundial e bastante destaque para heroínas da sétima arte. A começar por Ida Lupino, passaremos pelo cinema francês com Agnès Varda e Jean-Louis Trintignant, pelo film-noir americano e pelo médio oriente, até chegarmos aos samurais japoneses. O cinema alemão, celebrado num ciclo de colaboração com o Doclisboa, está também presente, embora não conte com obras de tanto relevo como as que aqui recomendamos.
Ida Lupino – Uma Mulher em Terreno Perigoso

Ida Lupino teve uma longa carreira como atriz, mas é a sua obra como cineasta que hoje a destaca – foi apenas a segunda mulher (depois de Dorothy Arzner) a ser admitida na Directors’ Guild of America. Eram tempos em que a realização, de um modo geral mas especialmente em Hollywood, era uma tarefa destinada a homens, e por isso o pioneirismo de Lupino não pode ser subestimado nem esquecido, até porque o seu cinema abordou temas progressistas como o adultério, a violação, o aborto, a bigamia. Deste ciclo destacamos as suas obras mais notáveis, à frente e atrás da câmara:
• High Sierra (O Último Refúgio, 1941) – Ao lado de Humphrey Bogart e dirigida por Raoul Walsh, nesta adaptação de uma popular novela de W.R. Burnett vemos Lupino envolvida com o gangster “Mad Dog” Earle, que, ao realizar um último assalto, acaba alvo de uma gigantesca perseguição na montanha. Sessões: Terça-feira, 1 de outubro, 15h30 // Quarta-feira, 2 de outubro, 18h30
• On Dangerous Ground (Cega Paixão, 1952) – Um dos filmes mais perturbantes de Nicholas Ray, cujo centro é o encontro entre um polícia violento e uma jovem cega, que vive numa casa isolada, casulo protetor para ela e o seu irmão adolescente, que será objeto de uma brutal caça ao homem. Mas este é antes de mais um filme sobre o conflito entre o ver, o não ver, e o acreditar. Sessões: Terça-feira, 1 de outubro, 19h00 // Quinta-feira, 3 de outubro, 18h30
• The Hitch Hiker (Arrojada Aventura, 1953) – Este é um dos mais célebres filmes realizados por Ida Lupino, uma obra de medo e suspense extraordinário, com argumento inspirado nos atos de um serial‑killer americano que aterrorizou a Califórnia no princípio da década de cinquenta. Dois amigos, de volta de um dia de pescaria, dão boleia a um estranho. Esse estranho é, sem favor, um dos vilões mais assustadores em toda a história do cinema americano. Sessões: Terça-feira, 1 de outubro, 21h30 // Quinta-feira, 3 de outubro, 15h30
• The Bigamist (O Bígamo, 1953) – Como realizadora, Lupino mostrou não apenas talento mas também gosto por argumentos pouco banais no contexto de Hollywood, e uma independência de espírito notável. Neste filme, um casal que vive em São Francisco prepara‑se para adotar uma criança, mas um funcionário da agência de adoções descobre que o homem tem uma segunda vida e um filho noutra cidade. Sessões: Quarta-feira, 2 de outubro, 21h30 // Sexta-feira, 4 de outubro, 15h30
• Outrage (Ultraje, 1950) – O primeiro filme que Lupino assinou como realizadora. Como praticamente toda a sua obra, este filme procura mostrar, no meio adverso de Hollywood e explorando os modelos da série B, a condição da mulher no seu tempo e lugar. Aqui, uma jovem é violada, acabando por ser vítima da má‑língua que a considera culpada. Sessões: Segunda-feira, 7 de outubro, 15h30 // Segunda-feira, 14 de outubro, 19h00
• The Trouble with Angels (Anjos Rebeldes, 1966) – As aventuras e desventuras de um grupo de adolescentes num colégio interno de freiras. Com um elenco quase exclusivamente feminino, este é o último filme que Ida Lupino realizou para o grande ecrã, quando voltou ao cinema como realizadora após dez anos de interregno passados na televisão. Sessões: Segunda-feira, 28 de outubro, 21h30 // Quinta-feira, 31 de outubro, 19h00
20ª Festa do Cinema Francês

Jean‑Louis Trintignant é o especialíssimo convidado da Cinemateca e da Festa do Cinema Francês em 2019. Numa rara incursão neste momento, o ator vem a Lisboa assinalar presença na homenagem que lhe é dedicada na Cinemateca. No seu vigésimo aniversário, a vertente retrospetiva da Festa do Cinema Francês presta ainda homenagem a Agnès Varda, falecida no passado mês de março, a cuja obra a Cinemateca regressa evocando o seu singular trabalho. A Cinemateca associa‑se também ao programa intitulado “20 Anos de Festa”, que propõe um percurso através de alguns dos muitos filmes que foram revelados aos espectadores portugueses pela Festa do Cinema Francês, em antestreia. De entre estas três secções, recomendamos:
• Entre les Murs (A Turma, 2008) – Vencedora da Palma de Ouro em Cannes, esta narrativa mistura elementos documentais e de ficção. Baseado no romance de um professor do ensino secundário, que transpõe a sua própria experiência no liceu de um subúrbio “difícil” e também interpreta o papel principal, o filme mostra o desfasamento entre os alunos desse meio e o sistema de ensino, mas também afirma «a indissolubilidade do compromisso do cinema com o compromisso da educação». Sessão: Quarta-feira, 9 de outubro, 19h00
• Varda par Agnès (Varda por Agnès, 2019) – Estreado na última edição do Festival de Berlim, este documentário pode ser visto como um complemento de outro filme-balanço da realizadora, Les Plages d’Agnès. Sentada no palco de um teatro repleto de espectadores, Varda fala da sua obra, ilustrando as suas palavras com fotografias e excertos de filmes. Esta e outras palestras, noutros palcos ou em raccord com eles, conduzem a revisitação dos filmes, fotografias e instalações de Varda na primeira pessoa. Esta antestreia conta com a presença de Rosalie Varda-Demy, filha da realizadora. Sessão: Sexta-feira, 4 de outubro, 21h30
• Cléo de 5 à 7 (Duas Horas na Vida de uma Mulher, 1962) – Talvez a obra-prima de Varda e o mais “Nouvelle Vague” de todos seus filmes. Narrado em tempo real (o tempo da narrativa é o da duração do filme), mostra-nos uma mulher que pensa ter um cancro e aguarda os resultados das análises clínicas que fez. Enquanto espera, encontra pessoas conhecidas e desconhecidas e atravessa a distância entre o obscurantismo e a lucidez sobre a sua própria identidade. E, como tantos filmes da Nouvelle Vague, também é um grande filme sobre Paris. Sessões: Terça-feira, 8 de outubro, 21h30 // Quinta-feira, 10 de outubro, 18h30
• Les Plages d’Agnès (As Praias de Agnès, 2008) – Aqui, Varda parte das praias que marcaram a sua vida para, através de um registo assumidamente autobiográfico, narrar na primeira pessoa a sua história e de todos aqueles que a rodearam ao longo de 80 anos. Um filme comovente que percorre imagens de outros filmes, fotografias, e inúmeros outros elementos convocados pela cineasta para partilhar a sua infância, a sua relação com Jacques Demy e com o cinema, as suas viagens, a sua vida familiar e o seu amor pelas praias. Sessões: Segunda-feira, 14 de outubro, 21h30 // Quarta-feira, 16 de outubro, 15h30
• Amour (Amor, 2012) – Ficção dura sobre o envelhecimento e a morte que é também, e essencialmente, uma dedicatória do realizador austríaco Michael Haneke a dois “monstros sagrados” do cinema francês e europeu: os atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Georges e Anne são um casal de professores de música reformados que mantém uma saudável relação de amor, quando um súbito AVC de Anne durante o pequeno-almoço muda tudo nas suas vidas. Georges depara-se com a angustiante dúvida em relação à possibilidade de recuperação da mulher. Esta obra, privada de qualquer sentimentalismo mas repleta de sinceridade e subtileza, obteve a distinção máxima de Cannes. Sessões: Segunda-feira, 7 de outubro, 21h30 // Terça-feira, 8 de outubro, 18h30

• Trois Couleurs: Rouge (Três Cores: Vermelho, 1994) – Última longa-metragem para cinema rodada pelo mestre do cinema polaco e francês, Krzysztof Kieślowski, e também o derradeiro ponto de convergência da famosa “Trilogia das Cores”, que se baseou conceptualmente nas três cores da bandeira francesa e no lema da Revolução Francesa, ou seja, liberdade (Bleu), igualdade (Blanc) e fraternidade (Rouge). Este filme conta a história de uma inusitada cumplicidade entre a perspicaz modelo Valentine (Irène Jacob) e um velho juiz (Jean-Louis Trintignant) “retirado do mundo” e com o estranho hábito de espiar a vida dos outros. Sessões: Quarta-feira, 9 de outubro, 18h30 // Quinta-feira, 10 de outubro, 19h00
• Ma Nuit Chez Maud (A Minha Noite em Casa de Maud, 1969) – Realizado a preto e branco, o que era raríssimo em 1969, este é o terceiro dos contos morais de Rohmer e também o mais abstrato e austero. O filme é ambientado em Clermont-Ferrand, terra natal do filósofo e matemático setecentista Blaise Pascal, cuja famosa teoria da “aposta” (simplificando muito: é melhor “apostar” que Deus existe) é discutida no filme por pessoas que refletem se estas teorias podem e devem ser aplicadas às suas próprias vidas. No centro do debate está o engenheiro de 34 anos Jean-Louis, que, no sentido da loucura ou da santidade, procura aplicar o catolicismo, qual receita de vida, às “apostas” românticas e sexuais. Sessões: Quinta-feira, 10 de outubro, 15h30 // Terça-feira, 15 de outubro, 19h00
• Vivement Dimanche! (Finalmente Domingo, 1983) – O último filme de François Truffaut, esta obra pode ser vista como uma paródia do filme negro, com uma intriga sombria e misteriosa que acaba por se resolver a bem. É uma obra claustrofóbica, com a ação quase toda noturna, filmada num preto e branco elegante e estilizado. Nesta história de “falso culpado”, onde abundam piscadelas de olho a Hitchcock, o homem, o patrão fugido encarnado por Jean-Louis Trintignant, poderá ter em Barbara, a sua secretária, os olhos e pernas de que necessita para se provar inocente. Sessões: Sexta-feira, 11 de outubro, 21h30 // Segunda-feira, 14 de outubro, 18h00
Double Bill

A única sessão dupla do mês de outubro é imperdível. São dois filmes unidos pelos terríveis equívocos da justiça e pela impotência dos falsos culpados na tentativa frustrada de quererem repor a verdade. Vidas simples que, de um minuto para o outro, se veem transformadas num verdadeiro pesadelo. São dois filmes maiores, interpretados por dois atores maiores e realizadas por dois cineastas sem par.
• Fury (Fúria, 1936) & The Wrong Man (O Falso Culpado, 1957) – Spencer Tracy, dirigido por Fritz Lang, é tomado por um sequestrador de crianças em Fury, o filme de estreia de Lang nos Estados Unidos. O realizador aborda nesta obra a irracionalidade das ações de massa, o fascismo e o racismo que lhes estão subjacentes. Já Henry Fonda, cerca de 20 anos depois, foi o sombrio Falso Culpado de Alfred Hitchcock. Talvez a sua obra mais sombria sobre a culpa e a inocência, com uma atmosfera inquietante, austera e severa, inesperadamente sem humor, baseada na história verídica de um músico erradamente tomado por um assaltante. Sessão: Sábado, 12 de outubro, 15h30
Cinemateca Júnior

Entre as seleções para os mais novos, salientamos dois exímios retratos de tenacidade, paixão e perseverança, que decerto despertarão o lado destemido e ousado dos espetadores:
• The Cameraman (O Homem da Manivela, 1928) – A última grande obra‑prima de Buster Keaton, e também o seu último filme mudo. Uma irresistível homenagem ao cinema e também (já) uma paródia às vanguardas cinematográficas, com Buster transformado num operador de atualidades da MGM cuja seriedade se transforma em burlesco. Com acompanhamento ao piano por Filipe Raposo. Sessão: Sábado, 12 de outubro, 15h00
• Persepolis (2007) – Um dos filmes de animação mais célebres dos últimos anos, esta fábula é baseada numa banda desenhada de Marjane Satrapi, a correalizadora do filme. A narrativa passa‑se em flashback: no aeroporto de Orly, uma iraniana de cerca de 30 anos recorda a sua adolescência no Irão, depois da revolução islâmica, incluindo a longa guerra com o Iraque e os bombardeamentos de Teerão. Uma história agridoce sobre tolerância, primeiros amores, a condição das mulheres e a história do médio oriente. Sessão: Sábado, 19 de outubro, 15h00
Por fim, elegemos duas obras-primas do cinema europeu e asiático, a primeira selecionada para a secção Inadjectivável e a segunda escolhida pelo público para a secção O Que Quero Ver.

• A Matter of Life and Death (Caso de Vida ou de Morte, 1946) – Paragem essencial do cinema fantástico e uma das mais deslumbrantes experiências com a cor no cinema, como seria de esperar da dupla inglesa Michael Powell e Emeric Pressburger. Um piloto ferido em combate é sujeito a uma melindrosa operação, e o tempo dela é também o de uma digressão pelo “outro mundo” (a preto e branco, contrastando com a cor do mundo real), onde tem de enfrentar um julgamento. Sessão: Quinta-feira, 3 de outubro, 21h30
• Yojimbo (Yojimbo, O Invencível, 1961) – Kurosawa é o mais ilustre representante dos filmes de samurais, e em Yojimbo conta a história de um samurai mercenário que se vende a dois grupos inimigos, tirando proveito da situação. É a densidade desta personagem principal que faz a particularidade do filme e, segundo o realizador, explica o êxito que teve: “A razão estava no carácter do herói e do que ele faz. É um verdadeiro herói e quando luta tem uma razão para o fazer. Não se limita a andar à volta e a fazer girar a espada no ar.” Sessão: Quarta-feira, 31 de outubro, 21h30

